sábado, 12 de outubro de 2013

"Era uma vez..."


   Walnize Carvalho
          
            Dia da Criança. Uma euforia menina apodera-se de todo o seu ser.   Por mais que  você se deixe distrair, sua memória,  quer brincar de “pique-esconde” indo  buscar fatos e personagens de infância distante.
            Estes, escondidos, com respiração ofegante, permanecem quase invisíveis aos seus olhos.Mas eles estão ali , puxando-lhe para a brincadeira. Dá até para perceber risos nervosos e manifestações de ironia e malícia.
          De repente, ouve ecoar no seu inconsciente a contagem regressiva de gritos abafados.
            Dez! Nove! Oito! Sete! Seis! Cinco! Quatro! Três! Dois! Um!...
            E a frase definitiva: - Tá quente!
            É a prova que você “pegou”...
            Pegou e se vê  envolvida por  reminiscências de tempos felizes de um passado presente: meninas em círculo,  sentadas na calçada, “passam anel” e declamam versos: “Lá em cima daquele morro/ Passa boi, passa boiada/ Só não passa moreninha/ Do cabelo cacheado” ou “Eu sou pequenininha/ Do tamanho de um botão/ Trago papai no bolso/ E mamãe no coração”.  
            Mais adiante crianças pulam corda, outras saltam “amarelinha” e você gira em seu bambolê amarelo (presente de um tio em Natal inesquecível).
            A um canto, na casinha arrumada, uma “mãezinha” entoa cantiga de dormir para sua filha - a boneca -, enquanto outras meninas se comunicam através de telefone feito de lata e barbante.
          Meninos compenetrados assistem filme que é passado em uma caixa de papelão com carretel e tirinhas de histórias em quadrinhos.
            No grande quintal da saudade, garotos soltam pipas, caçam passarinhos, alguns jogam bola de gude (baleba) e outros correm atrás de bola de meia...
           A noite chega.
           Um imaginário  chamado de “mãe” é o aviso que a brincadeira deve parar.
            É hora de aquietar-se.Guardar os brinquedos.Arquivar as recordações.

            Já recolhida no leito  parece ouvir alguém sussurrar aos seus ouvidos: - “Era uma vez ...”

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