sábado, 16 de março de 2013

Mulheres, apenas


Walnize Carvalho

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”... com esta música na cabeça saí à rua.
       Seguia pela manhãzinha fria e chuvosa.
        Passei por algumas pessoas. A maioria, mulheres.
       Mulheres que saem cedo de casa para o trabalho e são - em alguns casos - as que suam as blusas para o sustento da família.
        São trabalhadoras anônimas: balconistas, costureiras, garis, atendentes de laboratórios de análises clínicas, empregadas domésticas, enfermeiras e tantas outras que pertencem à outras categorias de emprego.
          Dirigi-me a uma agência bancária - mais precisamente- à porta lateral do banco a fim de utilizar um caixa eletrônico, pois ainda não era horário comercial.
          Distraída estava, à procura do cartão na bolsa, quando fui abordada por uma voz feminina, que chamava pelo meu nome.
        Levantei os olhos e ela, que ao me reconhecer saíra da “fila dos que precisam de ajuda”, abraçou-me efusivamente.
Ainda sob o impacto da surpresa, reconheci que se tratava de... de... (é isso, Sandra!) Sandra - o seu nome- que fora empregada doméstica, em minha casa ao tempo que “os meninos”ainda eram meninos...
        Saímos para a calçada em frente à repartição a fim de conversarmos um pouco.
        No início de sua fala, quase não a ouvia, dado ao filme que passava em minha cabeça: da sua vida sacrificada; do número enorme de filhos (naquele tempo, não havia creche e ela ora levava os filhos para a casa de um parente, ora para o emprego); da sua disposição e alegria em servir à minha família...
       Mas, foi o seu sorriso (o mesmo de antigamente) agora já desenhado em uma face madura, que impulsionou-me a ouvi-la.
       Perguntou pelos meus e em seguida cheia de orgulho falou de sua trajetória ao longo dos tantos anos, que não nos encontrávamos.
      Disse que ali estava para receber a Pensão deixada pelo marido (o último, revelou sem constrangimento).
      Em seguida contou da sua casa própria, do seu quiosque... Da filha casada (bem casada, fez questão de realçar!) dos netos : - Todos na escola! vibrou... Dos filhos empregados e detalhou: - Um é enfermeiro; o outro é motorista de ônibus; o “mais levado” trabalha “embarcado” e o mais novo é líder comunitário.
    E arrematou:- Sou uma vitoriosa, não sou?...
    Despedimo-nos.
    Ela retornou ao banco e eu caminhei mais um pouco, refletindo sobre aquele encontro.
    Deixei a visita bancária para o final dos compromissos, que me levaram ao centro da cidade naquela manhã.
  “Mulheres de Atenas”.... Os versos da canção voltaram à minha mente.
Refleti que hoje, em Atenas ou em qualquer parte do planeta as mulheres não são tão musas e nem tão submissas (como entoou Chico) e fazem a sua própria história.
Mulheres de Atenas...
Esqueci a melodia e balbuciei:
- Mulheres, apenas...
- Mulheres, apenas?
Não! Mulheres de antenas... com o mundo!

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