sábado, 23 de março de 2013

Assim, assim,distraída...

Walnize Carvalho
 
Assim, assim, distraída... você se vê - olhos abertos -, olhar fixo no teto do quarto ouvindo o burburinho que vem dos caminhantes notívagos e imagina, pela alegria resvalada, que retornam de alguma festa.
Assim, assim, distraída...você caminha até a janela do apartamento e “rouba “ um pouco da alegria do grupo e não maldiz a insônia que lhe fazia companhia.
Assim, assim, distraída...você observa que há outros passantes noturnos: trabalhadores que vão e vem e imagina, pelo ar de cansaço dos que vão, de que o plantão foi “puxado” e pelo jeito dos que vem, a disposição costumeira e a promessa de um bom dia de trabalho (afinal, há tantos por aí - desempregados - querendo estar no seu lugar!)
Assim, assim, distraída...você percebe que a madrugada já vai dando lugar ao dia que amanhece, e imagina a nobre e silenciosa “troca de turnos”: lições da Mãe Natureza.
Assim, assim, distraída...você ouve pássaros madrugadores e sua cantoria e imagina a paz que deve estar sentindo também alguém (que como você) tem o privilégio de usufruir destes acordes.
Assim, assim, distraída...você se dá conta de que o sol tem preguiça de entrar em cena, mesmo assim você sabe que ele existe.
Assim, assim, distraída...você sente a brisa matinal lamber-lhe a face, cerra os olhos e imagina ser o afago de uma criança.
Assim, assim, distraída...você deixa a imaginação fluir: você cria asas, viaja no tempo e, em segundos, chega à infância, sobe em árvores, colhe frutas... Em seguida, corre livre por campos floridos, recolhendo flores orvalhadas caídas no chão e segue até sua casa a fim de colocá-las na jarra para enfeitar e perfumar o ambiente.
Assim, assim, distraída... você imagina, cria, sonha, fantasia, alimenta, planeja, devaneia, inventa, produz, desenvolve, cultiva, idealiza, alça vôos e anda nas nuvens.
E assim, assim, distraída...você chega a se sentir impregnada pelo aroma reinante, “naquela” jarra de flores que está sobre a mesa e se sente inspirada.
 Senta-se em frente a tela do computador e digita palavras doces, suaves e imbuídas de otimismo, que – distraidamente - se tornam a crônica desta manhã de outono.

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