quarta-feira, 13 de março de 2013

Francisco, o papa mais improvável da história recente- por Maurício Savarese (Blog do Noblat)


“Não pode ser! Não pode ser!” Essa foi a primeira reação que ouvi no meio da praça de São Pedro quando o nome do cardeal arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bertoglio, foi anunciado como papa Francisco. Autor da reação: o padre argentino Sebastián Vivas, 31 anos.
"Ele é jesuíta! Ele tem 76 anos! Ele só tem um pulmão funcionando! Ele é um moderado! Ele torce para o San Lorenzo!” E foi candidato no conclave de 2005, acrescentei. Depois desistiu de ser. “Não pode ser”, repetia o padre de Mar del Plata.
A abissal maioria dos outros 100 mil fiéis e turistas da região ainda estava petrificada. Muitos jornalistas não sabiam exatamente de quem se tratava. Afinal, quem era o homem citado por especialistas como um eleitor importante, mas nunca como o provável sucessor do papa emérito Bento XVI?


O primeiro papa de fora da Europa em 1,3 mil anos precisou de cinco frases, ditas com a calma que o caracteriza desde os tempos em que trabalhava com favelados na Argentina, para ganhar um olhar mais afetuoso do público.
Esse fã de São Francisco de Assis tem na sua carreira vínculos mais fortes com a atividade pastoral do que com trabalhos administrativos. A multidão notou.
Filho de italianos, o novo papa começou a carreira como técnico químico. Desistiu pouco depois para abraçar o sacerdócio. Em 1958, entrou para a Companhia de Jesus. Passou alguns anos estudando ciências humanas em Santiago do Chile e voltou à Argentina em 1964 para ensinar literatura e psicologia em um colégio. Queria mais.
E por isso foi à faculdade de teologia, em San Miguel de Tucumán, no norte. Enquanto a Argentina vivia uma situação política difícil, Bergoglio cuidava de igrejas em cidades pequenas e ensinava a padres menos cultos. Seus críticos dizem que a falta de combatividade nesses tempos mancha seu currículo.
Ele alega, em sua biografia, que o papel exercido dentro da igreja também era importante para libertar a Argentina do regime militar. De qualquer forma, sua ascensão na carreira só veio em 1992 como bispo de Auca. O caminho para Buenos Aires, a principal arquidiocese do país, era também improvável.
Mas uma doença do titular o levou à capital como bispo-auxiliar, em 1997. Pesaram para sua indicação a notória capacidade pastoral, o conhecimento teológico aplicado ao jeito de ser na América Latina e sua simplicidade -- algo que ao menos 77 cardeais eleitores notaram.
Em 1998, já querido pelos fieis, tornou-se arcebispo. O então papa João Paulo II, de quem Bergoglio é um admirador, fez dele cardeal pouco depois. Desde então ele é um religioso que se tornou um peso pesado político ao mesmo tempo em que investe energia em obras sociais, como fez ao longo de toda a vida.
Mas não esperem que parte dele algum tipo de revolução dentro de Igreja. Bergoglio é um críticos do poder do casal presidencial argentino (o falecido ex-presidente Néstor Kirchner o chamou de “chefe da oposição”), do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da distribuição de anticoncepcionais gratuitos.
Ainda assim, ousa ao chamar de hipócritas os religiosos que não lembram que Jesus Cristo deu banho em leprosos e fez refeições na companhia de prostitutas. Foi esse perfil mezzo moderado mezzo conservador que lhe permitiu em 2005 rivalizar com o teólogo Joseph Ratzinger.
Relatos de um misterioso diário atribuído a Bergoglio dão conta de que ele tinha apoio crescente e reais chances de vencer. No entanto, em uma mudança brusca, teria afirmado aos colegas “não estar pronto para a eleição”. Venceu o alemão, braço direito de João Paulo II, com mais de 80 votos.
Bergoglio tem hoje apenas dois anos a menos que Ratzinger ao assumir o papado em 2005 (o argentino completa 77 em dezembro). Sinal de que mais um pontificado de transição vem por aí. E de que talvez os 114 outros cardeais não estivessem dispostos a fortalecer o poder do grupo conservador “Comunhão e Libertação”, representado por Angelo Scola, arcebispo de Milão e favorito nas furadas bolsas de aposta.
Talvez os outros cardeais não vissem no arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, um candidato capaz de reformar a Cúria Romana porque tem vínculos demais com ela. E talvez os outros postulantes não oferecessem a certeza de que saberiam dosar a conciliação para pacificar a igreja, envolvida em uma das maiores crises de sua história.
A única certeza que se tem após a vitória de Bertoglio é de que virá um choque por aí.

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