sábado, 26 de maio de 2012

Flexão e reflexão


Walnize Carvalho


Em dias nublados bate aquela vontade e até ( por que não?) necessidade de faxinar armários, rasgar papéis, arrumar gavetas...
Foi o que se deu comigo: cheia de disposição fui à luta e... prac! Um estalo nas costas me fez recuar e ir em busca de um dipirona ou similar qualquer.
Resolvi pedir orientação médica (via telefone) que me indicou um medicamento, aconselhou repouso e agendamento de consulta.
Impotente e imobilizada só me restou ler a bula do remédio e constatar que em matéria de reações adversas bato o recorde: sonolência, secura na boca,cefaléia, sudorese...
Tentei tirar humor da situação, mas constatei, que não dava para rimar humor com dor.
O jeito foi relaxar e apanhar algo mais interessante para ler. E o que me estava à mão (e prestes a ir pro lixo da faxina inacabada) era um encarte de jornal onde, curiosamente, deparei com um artigo, em que o autor me arrancou risos de descontração.
Ele escreveu: “Após os 60 você pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, cuidar do joanete, dormir cedo, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, aceitar o salário de aposentado, curtir todas as dores ósseas e musculares porque se algum dia acordar sem dor é porque você está morto”...
A leitura me levou a uma reflexão: Apesar de algum “não” prefiro envelhecer com sabedoria, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória. E me estimulou: fiz alongamento, fiz flexão e percebi que a dor lombar me dera uma ligeira trégua.
Mesmo assim, na manhã seguinte, consegui uma consulta médica e de lá fui direto para efetuar exames pedidos pelo profissional.
Cheguei à clínica radiológica situada em um movimentado edifício.
Entrei no consultório. Na sala de espera me dirigi à atendente; me identifiquei, entreguei o pedido médico, assinei guias – procedimentos de praxe.
Sentei-me.
Meu olhar raio X passeou pelo ambiente. Avistei revistas, bebedouro com copos plásticos e folhetos sobre o balcão. No canto, um vaso marrom. Nele, como adorno, galhos secos e pontiagudos que, ironicamente, a mim simbolizavam ossos de braços e pernas de esqueleto humano.
A funcionária avisou que o radiologista ainda não chegara. Observei também que não havia mais pacientes no recinto.
O silêncio do ambiente era preenchido por música suave e, vez por outra, pelo farfalhar dos papéis que eram manuseados pela atendente. Em seguida, ela começou a fazer ligações telefônicas: umas para agendar exames e outras de cunho pessoal. Estas recheadas de comentários e risos que me fizeram buscar na bolsa, papel e caneta. Comecei a registrar ideias, frases soltas para serem, quem sabe, aproveitadas futuramente.
A monotonia reinante foi quebrada pela chegada de uma esbaforida senhora, que sentando-se ao meu lado e puxando conversa disse: - Como tem gente doente, não é? Eu, monossilábica, concordei: - Hum! hum!...
Menos ofegante a mulher foi ao balcão e após ser atendida retornou ao assento. Logo depois, entrou outra senhora e ela repetiu a frase a mim dirigida: - Como tem gente doente, não é? Daí em diante deu-se inicio a um diálogo digno de registro (o que apressadamente passei a anotar). Dizia a primeira: “Tenho osteopenia e discopatia degenerativa em protusão discal em L5”. A outra: “Ah! Minha facite plantar não me deixa fazer caminhadas”. E prosseguiam: “Menina, minha peritendinite calcária me tira o sono”. “Não sei como suporto! Tenho uma vértebra lombo-sacra com megapófise transversa”.
Eu, esquecida das horas, do atraso do exame, escrevia ...escrevia... já sentindo dores nas articulações dos dedos.
Parei e analisei: estou diante de duas Phd em medicina óssea...
O médico chegou. A atendente me encaminhou para a sala de raio X. Ainda ouvia ao longe palavras soltas, como: entorse, luxação, escoliose...
O radiologista perguntou: - A senhora sente alguma coisa? Respondi ainda sob o impacto da conversa ouvida: - Dor de cabeça, doutor! Quer dizer, cefaléia!
Um ponto de interrogação desenhou-se em seu cenho.



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