segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pelo Mundo...


Um coração de metal

Da:Ilustradíssima (Folha de São Paulo)
ALEXANDRE VIDAL PORTO
DE TÓQUIO
O amor pode assumir várias formas, todas elas avassaladoras. Em Tóquio, a exposição de arte mais visitada neste verão fala disso.
A exposição "All You Need Is Love" acontece no Museu de Arte
Mori, e a curadoria, eclética, inclui do russo Marc Chagall ao chinês Zhang Xiaogang, passando pela mexicana Frida Kahlo, o romeno Constantin Brancusi e a americana Nan Goldin.
Os trabalhos são exibidos de acordo com temas relacionados ao amor (significado, romance, perda, família e transcendência).
As fotos de Tatsumi Orimoto e de sua mãe com Alzheimer (família) são comoventes, e caminhar pelo labirinto psicodélico de Yayoi Kusama (transcendência) é prazeroso.
No entanto, em relação ao amor, o sexo aparece como elemento menor. Suas representações mais explícitas são algumas gravuras japonesas shunga e as telas bordadas pela artista taiwanesa Chang En-Tzu, nas quais personagens de histórias infantis são representados em atos eróticos.
Na exposição, o conceito de amor é idealizado. É brilhante, bonito e sem imperfeições. É asséptico. Assume formas tão abstratas quanto "Hatsune Miku", criação cibernética que se apresenta como cantora, mas que não desafina ou envelhece.
Não é à toa que o cartaz da exposição apresenta um vistoso e polido coração de metal, embalado para presente em papel dourado, de autoria do norte-americano Jeff Koons. Quando me dei conta de que aquele coração não trazia nenhum arranhão ou desgaste, foi que me perguntei se aquele amor todo exibido no Mori seria, de fato, amor verdadeiro.
DOIS COELHOS
Todas as tardes, às 17h, pontualmente, uma canção invade as ruas de Tóquio. Dura uns 30 segundos. Nunca falha. O som vem de alto-falantes instalados em postes, e a escolha musical varia dependendo da região da cidade. No meu bairro, toca uma canção de ninar tradicional chamada "Yuuyake Koyake", que toda criança japonesa cresce ouvindo.
Haviam me dito que se tratava de um aviso para as crianças de que a noite se aproxima e que elas devem voltar para casa. A explicação faz sentido e é poética. Combina com um lugar em que tudo funciona por meio de regra coletiva e é comum ver crianças irem desacompanhadas à escola.
Depois, porém, no site da prefeitura, descobri que o objetivo daquela música diária é verificar que os alto-falantes estejam funcionando em caso de catástrofe ou terremoto. Também faz sentido. Uma função não invalida a outra. Com uma cajadada, matam-se dois coelhos. Ou, como se diria por aqui, "Isseki Nicho".
A VIAGEM DE HORIKOSHI
A maior bilheteria nos cinemas de Tóquio é o novo --e último-- filme de animação de Hayao Miyazaki, que ganhou o Oscar por "A Viagem de Chihiro" em 2003. "The Wind Rises" ("o vento se levanta"), apresentado no Festival de Veneza com o anúncio da aposentadoria do cineasta de 72 anos, baseia-se na vida de Jiro Horikoshi, que projetou o avião Zero, usado pelos kamikazes na Segunda Guerra.
Como os anteriores, o filme de Miyazaki traz mensagem pacifista e enfoca os dilemas éticos e morais enfrentados por Horikoshi ao ver sua obra associada à destruição.
Myazaki, habituado aos elogios da comunidade politicamente correta, tem tido de lidar com críticas inesperadas. Setores da sociedade civil, em especial organizações antitabagismo, acusam-no de irresponsabilidade social e condenam o filme por exibir um número que acham exagerado de fumantes.
TURISMO NUCLEAR
Comenta-se que o governo japonês estuda autorizar atividades turísticas na área da usina nuclear de Fukushima. A região, atingida pelo tsunami e o grande terremoto de 2011, foi cenário do segundo pior acidente nuclear da história.
A ideia seria construir um complexo turístico que incluísse hotel, restaurantes e um museu, a cerca de 40 km da usina. Os defensores da iniciativa argumentam que ela ajudaria a estimular a recuperação e a revitalização econômica da área devastada.
Entre as atrações turísticas anunciadas, estariam visitas ao interior da usina e ao ponto zero do vazamento nuclear. Um lembrete aos visitantes: não se esqueçam dos uniformes de proteção e dos respiradores, porque os trabalhos de descontaminação das instalações ainda levarão décadas para se completar.

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