segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ciência sem receita

JOYCE MORENO
Da:Ilustradíssima (Folha de São Paulo)

Eu estudava jornalismo na PUC-RJ, em 1966, quando pela primeira vez me aproximei de Vinicius de Moraes (1913-80). Era um trabalho de grupo e me fora dada a missão de abordar algumas personalidades, fazendo a todas a mesma pergunta besta: "Pode a guerra do Vietnã acabar com a primavera?". Para minha surpresa, todos os "entrevistados" - Nara Leão, Gilberto Gil, Sérgio Porto- responderam simpaticamente. E o poeta, claro, não foi exceção.
Mais ou menos um ano depois, quando pela primeira vez classifiquei uma música no Festival Internacional da Canção, comecei a conhecer outros artistas e gente do ramo. Wanda Sá, a grande cantora bossa-novista, me procurou quando eu fazia uma pequena participação num show de Maria Bethânia: "Ouvi suas músicas, Vinicius precisa te conhecer. Vamos lá na casa dele, agora mesmo!"
Era a casa de Vinicius de Moraes, um dos meus ídolos, uma chance imperdível! Mas eu jamais imaginaria que ele se lembrasse da estudante atrevida que o abordara um ano antes... Pois lembrou.
Vinicius morava numa cobertura na rua Diamantina, no Jardim Botânico, com Nelita, então sua mulher. Parecia uma festa, mas depois me dei conta de que aquilo acontecia quase todas as noites: pessoas cantando, bebendo, conversando, rindo até o sol raiar.
Pedro de Moraes/Acervo Pessoal
Vinicius de Moraes e a cantora Joyce Moreno na varanda do bar Antônio's
Vinicius de Moraes e a cantora Joyce Moreno na varanda do bar Antônio's
"Que vida!", pensei cá comigo. "Vida de poeta, também quero." Mostrei algumas das minhas primeiras composições, que ele adorou. "Você é uma feminista", ele disse, pelo fato de as canções serem sempre no feminino singular -definindo uma característica da qual até então não tinha consciência. Eram coisas intuitivas, feitas por uma iniciante de 19 anos. E que ele ouviu com respeito e sincero interesse. Lição número um.
A lição numero dois, definitiva, se deu quando chegou um de seus jovens parceiros, Francis Hime, e os dois começaram a trabalhar numa nova canção. Ali, diante de todos, sem esconder o ouro. Dois profissionais, experts na grande arte da canção popular, descortinando uma obra em progresso. A festa virou então uma grande oficina, e eu me vi assistindo a uma "master class" inesperada.
Maravilhada, fui descobrindo como aquilo era suor, era trabalho, ainda que prazeroso, e exigia um conhecimento profundo do encaixe das sílabas certas na melodia, rimas internas, uso esperto da palavra, musicalidade do letrista e sofisticação, apesar da aparente simplicidade. Eu estava tendo uma aula de composição ali, ao vivo e em cores. Parecia fácil, mas havia naquilo uma ciência da qual eu jamais havia suspeitado.
Quando os trâmites foram dados por findos, voltou o clima de festa, com todos os presentes cantando juntos a canção recém-parida. A nova composição foi exaustivamente testada e aprovada, aparadas as possíveis arestas, até à perfeição. Lá pelas oito da manhã, quando nos retiramos da casa dele, cansados e felizes, a aura mágica do poeta nos envolvia a todos.
Dali em diante, eu veria esse processo acontecer muitas vezes, com o próprio Vinicius e também com outros autores -como Tom Jobim, que vi trabalhar as letras de "Wave" e "Águas de Março" diante de um monte de amigos, pondo em prática os ensinamentos que recebera de Heitor Villa-Lobos sobre o "ouvido de dentro" não ter nada a ver com o "ouvido de fora".
Mas o encantamento da primeira vez, naquela festa na cobertura do Vina, seria para mim inesquecível. Ali aprendi que o autor existe como entidade única e intransferível e que a música popular é uma arte/ciência que não tem receita, mas demanda um saber específico para o qual são muitos os chamados e poucos os escolhidos.
Minha amizade com Vinicius durou uma vida inteira. Ao longo dos anos, viajamos pelo mundo, rimos, choramos e cantamos juntos. E só não compusemos juntos porque eu era uma boba e perdi tempo esperando que me viesse a melodia "certa" para entregar ao poeta, que não poucas vezes me cobrou essa parceria. Mas busco até hoje manter em minha música o frescor e a alegria que a então menina de 19 anos viu transbordar no compositor veterano, hoje centenário. E cada vez mais eterno.

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