sexta-feira, 19 de julho de 2013

Amanhecendo com Bandeira


Testamento


Manuel Bandeira
O que não tenho e desejo 
É que melhor me enriquece.
 Tive uns dinheiros - perdi-os... 
Tive amores - esqueci-os. 
Mas no maior desespero
 Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra. 
Por outras terras andei. 
Mas o que ficou marcado
 No meu olhar fatigado, 
Foram terras que inventei. 
Gosto muito de crianças:
 Não tive um filho de meu. 
Um filho!... Não foi de jeito... 
Mas trago dentro do peito
 Meu filho que não nasceu. 
Criou-me, desde eu menino
 Para arquiteto meu pai. 
Foi-se-me um dia a saúde...
 Fiz-me arquiteto? Não pude! 
Sou poeta menor, perdoai! 
Não faço versos de guerra.
 Não faço porque não sei. 
Mas num torpedo-suicida 
Darei de bom grado a vida 
Na luta em que não lutei!

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