sábado, 2 de fevereiro de 2013

Histórias na varanda

                                                 Foto:walnize carvalho
Walnize Carvalho

     Praia do Farol de São Tomé.
     O sábado amanhece.
     Salto da cama, abro portas e janelas e dirijo-me à varanda da casa.
    Varanda solitária de pessoas, mas povoada de lembranças.
As suas paredes desbotadas pelo tempo, onde se vê um tom rosa pálido em contraste com o vivo das flores, que ornam a entrada da casa, em nada diminuem o encantamento que elas escondem.
    Ao longo delas, dá para notar leves rachaduras, que a mim dão a impressão, de que a qualquer momento serão emitidos sons abafados de suas entranhas. E, por pura imaginação irão saltar risos, gargalhadas, sussurros, soluços e oh! e ah! de admiração.
   Corro os olhos pelo ambiente e pareço visualizar cenas inesquecíveis, que vivenciei em verões distantes.
A noitinha que chega.
Após o jantar, a família reunida em volta de meu pai (sentado em uma espreguiçadeira - tendo na cadeira ao lado, a sempre companhia de minha mãe -) contava histórias memoráveis, no palco que era a varanda da casa.
O cenário (quase sempre) de lua e estrelas, de minuto a minuto era observado pelo a luz emanada do Farol - marco central da praia - que, por entre as folhagens parecia espiar e “fotografar” o espetáculo. Filhas e netos (e vez por outra algum vizinho) sentavam-se e deixavam-se viajar pelas narrativas: ora pontuadas de humor; ora de mistérios; ora de conhecimentos, que o “dono da casa” embalava os presentes a cada encontro.
E eram revelações pessoais como a da figura de “Nhanhá” que ele assim descrevia: “Nhanhá era uma espécie de segunda mãe que tive.Vivia em uma casinha de palha acolhedora. Era um contadora de histórias. Nas horas de folga contava com riquezas de detalhes e natural suspense “ estórias de príncipes” , como ninguém. Sabia os “ contos da carochinha “ de cor , embora não soubesse ler. Pitava cigarro de palha. Em noites de luar, quando estávamos no terreiro de casa descascando milho em mutirão com os vizinhos ela vinha nos ajudar....E ele sentenciava: -Estou certo que ela com seus contos,seus cantos e suas danças foi quem me fez despertar para as letras”...
Como também, as de serenatas feitas com amigos; os bailes em casas de famílias...
Estas e outras que sua memória afetiva deixava escapar...
E eram informações sobre: o Cabo de São Tomé; o Rádio Velho; a cura da doença”beri-beri” nas águas barrentas do mar bravio do Farol; o velho sobrado de Pinheiro Machado na Boa Vista...
E eram histórias “das gentes” simples, com as quais conviveu ou ouviu falar, quando em tardes memoráveis se dirigia à pracinha do calçadão da praia, indo ao encontro de velhos amigos e voltava para casa com farta bagagem na memória.
As contava de forma peculiar o que deixava “a plateia” ansiosa pela a “apresentação” na noite seguinte.
      O tempo se incumbiu de transformar o “narrador de histórias”, em escritor e a sua obra aí está patenteada em livros (sem contar com inúmeros ”livretos” inéditos digitados e guardados).
Ainda,recentemente, fomos brindados: familiares, amigos, fiéis leitores pela bela publicação de uma “Revista em Quadrinhos” encartada aqui no “O Diário”,extraída dos seus: “Na Terra do Heréos” . Aos idealizadores, o agradecimento em nome de minha família pela expressiva homenagem.
De posse da Revista, ajeito a cadeira na varanda, a folheio cheia de emoção.
Pareço vê-lo ao meu lado sentado: olhar brilhante e um “meio riso” nos lábios.

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