quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Negócios 'estranhos' atraem atenção de investidores e do mercado

Da: Folha de São Paulo
Existe no país uma start-up (empresa tecnológica iniciante) para controlar o uso de lentes de contatos e enviá-las pelo correio antes que o estoque do consumidor acabe.
Em São Paulo, um empreendedor lançará um revestimento de plástico para proteger o dedo do cliente enquanto ele digita a senha em máquinas compartilhadas.
A princípio, essas ideias podem parecer estranhas, mas já receberam investimento e ambas são consideradas promissoras pelo mercado.
Produtos ou serviços inovadores, ou mesmo engraçados, têm chance de sucesso, mas precisam resolver problemas ou demandas do consumidor.
O diretor-executivo da eÓtica, Bruno Ballardie, 29, por exemplo, viu uma oportunidade assim. "Descobri que quem usa lente de contato esquece com frequência de comprar uma nova.
No Brasil, o tipo mais usado é a lente que dura um mês. Nosso site administra a compra e a entrega do produto. Já contamos com 2.000 assinantes", destaca.
  Com a ideia, a empresa já recebeu sua primeira rodada de investimentos da Kaszek Ventures e do investidor-anjo Kai Schoppen. Os valores não foram divulgados.
CAMISINHA PARA O DEDO
Problemas pessoais também inspiram start-ups estranhas. O engenheiro mecânico Patrick Hunaudaye, 50, lembra que, em 2011, sujou as mãos quando estava pagando uma compra em um supermercado. "A maquininha do cartão estava imunda.
A caixa até fez uma brincadeira desagradável, dizendo que uma cliente que usou o terminal antes estava com conjuntivite", lembra. Hunaudaye iniciou uma pesquisa.
Descobriu que médicos infectologistas consideram que grande parte das doenças são transmitidas pelo toque e que os terminais de senha são apontados como propícios para proliferar micro-organismos, pois são quentes, têm ranhuras e não são limpos em profundidade.
Ele e a mulher Maria Fernanda Goulène, 41, criaram a start-up PAT (Proteção ao Toque), que desenvolveu o que seus inventores chamam de "camisinha para o dedo", isto é, uma pequena luva para o dedo indicador.
O produto foi criado em março do ano passado e pode ser vendido em rolos individuais descartáveis ou em versão de caixinha para levar no bolso. "Já temos a patente nacional e recentemente conseguimos a internacional.
Empresas devem lançar o produto comercialmente neste ano."

  OVO DE COLOMBO
 Outra dificuldade pessoal foi a inspiração para a criação da empresa ColOff.
 A instrumentadora cirúrgica Carolina Fagundes, 37, descobriu em 2007 que sua mãe Ivonice Satie estava com câncer de colo-retal e a forma correta de tratamento só podia ser descoberta com um exame muito preciso para detectar sangue nas fezes.
  Então, Fagundes desenvolveu um revestimento de assento sanitário que ajuda a coletar o material. A invenção impede que os detritos entrem em contato com a água e o vaso sanitário.
 Junto com o marido Eliezer Dias, 36, ela criou a empresa ColOff.
No ano passado, venceu o Desafio Brasil, um dos concursos de start-ups mais conhecidos do país, e ganhou uma vaga na competição mundial de start-ups em Berkeley (EUA).
O produto é usado no hospital Albert Einstein e vendido em drogarias por R$ 2,50. "Foi como um ovo de Colombo. Todos afirmam que a ideia é muito simples, mas ninguém a enxergou antes", comenta Dias.

MALUCOS
 Sergio Risola, diretor-executivo do Cietec (Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia), da Universidade de São Paulo, afirma que toda semana recebe pelo menos uma proposta de start-up estranha para analisar. "Minha primeira reação é tentar descobrir se o cara é normal ou não. Recebemos muitas pessoas excêntricas."
Ainda segundo ele, o caminho que faz para escolher quais start-ups serão incubadas é conversar com o futuro empreendedor para conhecer currículo, experiência no mercado e detalhes da ideia.
Uma falha comum de muitos candidatos é que eles não sabem explicar o projeto. "Propostas muito inovadoras têm mais riscos, por isso muitos desistem. Mas para aqueles que insistem e verificamos que têm potencial, fornecemos 15 dias de aulas para que eles aprendam a fazer um plano de negócio." O diretor da DGF Investimentos Patrick Arippol diz que a visão do "Professor Pardal" não funciona no mercado. "O futuro empreendedor tem que demonstrar que consegue resolver um problema concreto e a maneira de executar isso em escala."
  Para Arippol, que ajuda a administrar R$ 500 milhões de fundos, o investidor procura características comuns: o empreendedor tem que demonstrar como irá faturar com sua ideia, mostrar possíveis clientes, provar que seu produto interessa ao mercado e saber de quanto dinheiro precisa.
 Em dois anos, ele analisou mais de mil projetos e fez só três investimentos.
Apesar dessa dificuldade maior para os produtos ou serviços estranhos, Risola cita um diferencial. Ele destaca que a maioria das start-ups atuais "segue a corrente", isto é, nasce para atender um mercado já consolidado ou apenas copiam ideias de sucesso no exterior.
  "Sem dúvida isso diminui riscos, mas em contrapartida a competição e os gastos com marketing são bem maiores. Já uma ideia muito inovadora, se for viável, tem um potencial enorme", destaca. MIRANDO O FUTURO

 Uma proposta que lembra um filme de ficção científica move outra empresa. A start-up DB Genética tenta realizar no Brasil uma mescla de modelo de negócio já existente fora do país com uma inovação tecnológica.
A empresa irá comercializar testes genéticos para medir a probabilidade de recém-nascidos terem características como calvície, habilidade para esportes, memória e intolerância à lactose. Nos EUA, a empresa mais famosa nesse modelo é a 23andMe.
"Nossa intenção é alertar com antecedência para possíveis problemas. Isso ajuda a montar as rotinas necessárias para evitar ou minimizar sofrimentos às crianças", afirma André Ribeiro, 29, um dos sócios da DB Genética.
A próxima inovação buscada, em parceria com a start-up americana Natera, será traçar as características ainda durante a formação do feto.
A DB Genética foi aceita no Cietec no ano passado. Ribeiro e seu sócio Ricardo Di Lazzaro Filho, 26, criaram um plano de negócios para buscar uma subvenção na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o apoio de investidores.
Uma das dificuldades encontradas foi estimar o tamanho de mercado para os testes genéticos. "Empresas muito inovadoras têm essa dificuldade comum para medir o interesse por produtos novos. Fizemos uma estimativa baseada em quanto o brasileiro gasta com saúde."

EU QUERO TCHÚ
 Entre as start-ups digitais também existem casos de empresas que tentam caminhos estranhos.
A Meu Karaokê foi criada em junho como um site para que internautas compartilhem suas performances como cantores. Seu fundador é Mauricio Anthony Neres, 32, que trabalhou em empresas do ramo de tecnologia nos EUA, como a Amazon.
A primeira música publicada foi "Eu Quero Tchú, eu Quero Tchá", de João Lucas e Marcelo.
"Enviei o link do site para meu sobrinho em Porto Seguro (BA) e, em duas semanas, metade do colégio dele tinha gravado uma versão e criado uma página no Facebook", lembra.
O site tem cerca de 3.500 acessos mensais. Foram investidos aproximadamente R$ 40 mil de capital próprio, que a empresa espera recuperar até 2014.
O site ainda não cobra assinaturas e negocia com um investidor.
Outro exemplo de start-up digital com proposta diferente é a Qranio, uma plataforma de jogo on-line, porém, voltada para a educação e distribuição de prêmios.
Esses itens a principio discrepantes se combinam porque os usuários ganham conhecimento por meio de jogos de perguntas e respostas e recebem uma moeda virtual que pode ser trocada.
Seus fundadores são os mineiros Samir Iásbeck de Oliveira, 31, Gian Menezes, 25, e Flávio Augusto, 24.
O diretor-executivo, Oliveira, afirma que a inspiração para o negócio veio porque ele cresceu em Bicas (MG), odiava a obrigação de ir para a escola e preferia ficar na rua. "Cada pessoa tem um tipo diferente de acumular conhecimento, nunca gostei das formas convencionais. E também o ensino mudou, é mais dinâmico. Minha filha de seis anos já usa até o Instagram", comenta.
  O site entrou no ar em 2011 e atua no modelo "freemium", isto é, as funções são gratuitas, mas serviços extras são cobrados. A assinatura custa R$ 6 por mês. Até o final do ano passado eram cerca de 55 mil usuários.
A empresa já recebeu investimentos da aceleradora Wayra (da Telefônica) no valor de R$ 100 mil e de um investidor-anjo (Gui Affonso) de mais R$ 200 mil.
Também venceu no ano passado a edição brasileira do PepsiCo10, um programa que incentiva estudantes e start-ups a criarem novas ideias de negócios para as marcas da empresa.
Antes de lançar a empresa, porém, Oliveira afirma que ter cumprido um longo percurso. Ele tinha uma fábrica de softwares em Juiz de Fora (MG) e desde 2000 começou a desenvolver a ideia do Qranio e seu código de programação.
Também foram realizados testes com mais de 3 mil pessoas e várias propostas de "social games" foram pesquisadas. "Sempre acreditei na proposta de valor da nossa ideia, mas também batalhei para chegar perto da certeza de viabilidade", finaliza.

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