segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Bancas de jornal querem aproveitar nova lei para reconquistar público perdido

O jornaleiro Paolo Pellegrini, 64, em frente à Banca República, uma das mais antigas da cidade

Da:Folha de São Paulo
LETÍCIA MORI
RICARDO SENRA

No início do século 20, elas se resumiam a pilhas improvisadas de caixas de madeira. Durante a ditadura, pegaram fogo (literalmente), incendiadas por vender material "subversivo" como "O Pasquim". No fim dos anos 1990, viraram pontos de encontro de jovens na madrugada --com paquera e cervejinha.
Hoje, as bancas de jornais tentam se reinventar para vencer a concorrência: em dez anos, padarias, lojas de conveniência e mercadinhos abocanharam 30% das vendas de periódicos e revistas.
A ideia é contra-atacar: uma lei municipal aprovada pelo prefeito Fernando Haddad na semana passada ampliou a lista de produtos e serviços que podem ser vendidos nas 3.500 bancas da capital.Agora elas podem oferecer bebidas não alcoólicas e alimentos industrializados como sorvetes, salgadinhos e doces (mas só até 200 g).

O rebuliço não traz grandes novidades ao consumidor. Na prática, a lei legaliza um hábito que já era comum desde os anos 1990, à revelia das regras impostas pela prefeitura. Só neste ano já foram aplicadas 76 multas (de R$ 115 a R$ 575).
Segundo a legislação anterior (de 2000), o limite para alimentos industrializados era de 30 g, ou o equivalente a um pacote de balas. "Mas uma Halls pesa 37g", diz Paolo Pellegrini, 64, responsável pela Banca República, na esquina das avs. São Luis e Ipiranga (centro), onde até livro de arte de R$ 750 se encontra. "A prefeitura sempre fez vista grossa. Um dia, um fiscal apareceu, me multou e levou as balas. Depois sumiu de novo."
Não foi a primeira vez que o veterano da República precisou enfrentar a fiscalização. Na ditadura, para driblar a censura dos militares, ele escondia numa caixa de sapatos exemplares dos "catecismos", como ficaram conhecidas as revistinhas de quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro.
Por ali, ainda na década de 1970, o jornaleiro recebia vizinhos ilustres, como Gilberto Gil e Caetano Veloso (que já cantava: "O sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia").
"Um dia o Gil veio comprar jornal de túnica branca. Os loucos da praça acharam que ele era São Pedro e saíram correndo atrás dele", lembra.

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