quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ary Barroso-110 anos

O ESTADÃO publicou em outubro deste e reproduzo:

Caixa com gravações originais de Ary Barroso sai após anos sem patrocínio

A partir dos anos 1930, Ary Barroso (1903-1964) ficou conhecido não apenas por seus sucessos musicais, mas também pela fama de carrasco que construiu ao comandar o programa Calouros em Desfile. Ranzinza, reprovou nomes como Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves e Ângela Maria, além de ridicularizar tantos outros, como Elza Soares e Vinicius de Moraes.
Ironia do destino, o mineiro de Ubá, autor de clássicos como Aquarela do Brasil, No Rancho Fundo, Risque, Na Baixa do Sapateiro, Morena Boca de Ouro, É Luxo Só e  Pra Machucar Meu Coração, não poderia imaginar que sua obra seria de certa forma “gongada” por seu próprio país durante muito tempo.
Em novembro, mês que marcam os 110 anos de seu nascimento, as primeiras gravações de seu cancioneiro serão lançadas após uma batalha de mais de sete anos em busca de patrocínio.

O pesquisador Omar Jubran, que organizou e remasterizou as gravações originais de todas as músicas do compositor, chegou a um acordo na última segunda-feira com o Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, para lançar uma caixa com 20 CDs, batizada deAry Barroso – Brasil Brasileiro.
O box, que teria tiragem inicial de 2 mil cópias (se o valor captado em patrocínio fosse suficiente), sairá com mil. Serão 316 das 321 músicas de Ary Barroso, já que cinco desses fonogramas não foram localizados. Omar Jubran levanta a hipótese de que tais canções foram de fato compostas, segundo levantamento do cancioneiro de Ary, mas podem não ter sido prensadas e lançadas.
“Trabalhos como este estão na essência do Museu da Imagem e do Som: a recuperação de um dos maiores compositores do País, com obra tão brilhante”, diz André Sturm, diretor-executivo do MIS.
Segundo Sturm, essas primeiras cópias serão distribuídas pelo MIS. Uma parte irá para instituições do estado de São Paulo parceiras da Secretaria de Estado da Cultura, e, outra, ficará no museu para uso cultural. Foi feito um acordo, dizendo que a Novodisc (selo que fabrica os CDs de Jubran) poderá fazer quantas outras edições quiser por sua conta desde que conste que o projeto recebeu apoio do MIS e da Secretaria do Estado da Cultura. O preço do box para o público ainda não foi definido.
O projeto, que teve autorização do Ministério da Cultura para captar cerca de R$ 1 milhão via Lei Rouanet, receberá verba do MIS, mas também aguarda investimentos de mais um patrocinador. Negociações com o herdeiro de Ary Barroso, o neto, Márcio Barroso, e com as editoras estão encaminhadas, restam apenas alguns acordos com gravadoras.
Aos 60 anos, Jubran, que é biólogo aposentado, espera pela viabilização da caixa desde 2006, ano em que concluiu todo o trabalho sobre Ary, iniciado por ele em 1996. Imaginava-se que haveria um interesse maior pelo projeto por parte de investidores, já que, em 2000, o pesquisador havia mostrado suas credenciais ao lançar o elogiado Noel Pela Primeira Vez, box que trazia 14 CDs com as primeiras gravações de Noel Rosa (1910-1937) remasterizadas.
Em 2004, o selo Revivendo já havia compilado parte da obra de Ary em seis CDs, mas o trabalho de Jubran tem fôlego maior. “Já escolado, no fundo, vejo que não há interesse e boa vontade. O trabalho feito sobre o Noel foi parar até na biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Todo mundo sabia do meu trabalho com o Ary, mas este é um País sem memória”, diz Jubran.
“Há quem possa (ajudar). Bancos, montadoras, mas não se interessa. Eu costumo dizer que isso é dinheiro de pinga para eles. Eu já estava desanimado sobre lançar este projeto. Faço por puro diletantismo, sem esperar algo em troca. No centenário do Ary, o máximo que me deram foi um ‘parabéns’ pelo projeto”, completa o pesquisador, que recebeu negativas de mais de dez empresas ao longo do caminho.
Nos moldes do que foi feito com Noel Rosa, além das primeiras gravações de 316 músicas de Ary Barroso, a caixa trará também um livro com informações relacionadas às canções: todas as letras, ano de gravação de cada uma delas, levantamento das músicas por gênero, nome das gravadoras pelas quais foram registrados os fonogramas, histórias e curiosidades sobre Ary e suas criações.
No time dos intérpretes, nomes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Aracy de Almeida, Jamelão, Orlando Silva, além de Ângela Maria e Moacyr Franco. E ainda gravações menos conhecidas, como as de um disco que Ary gravou no México, e outra, a de Semente do Amor, retirada da trilha de Três Colegas de Batina, filme em que o compositor atuou com o Trio Irakitan no início dos anos 1960.
Todo o material foi não só compilado como remasterizado individualmente por Jubran. “Dá um trabalho danado você remasterizar, melhorando a qualidade do som, mas sem perder a fidelidade”, comenta o pesquisador autodidata em relação às técnicas de recuperação sonora. “Aprendi tudo sozinho. No começo, era complicado. Uma mídia virgem custava US$ 15, e, se algo dava errado, você jogava um bom dinheiro fora”, completa Jubran.
“Não sou um entusiasta do Ary Barroso, que muito deve aos arranjos e às orquestrações do Radamés Gnattali, mas louvo o trabalho do Jubran. É um trabalho de relojoeiro, e muito necessário, esse de recuperar com os recursos de hoje as gravações daquela época, que tinham suas deficiências”, diz o pesquisador e crítico musical José Ramos Tinhorão.
Próximas etapas serão Lamartine, Adoniran e carnaval
Depois de compilar e remasterizar as primeiras gravações de Noel e Ary, Omar Jubran repete o feito com as obras de Lamartine Babo (1904-1963) e de Adoniran Barbosa (1910-1982).
O trabalho sobre as cerca de 230 canções de Lamartine foi finalizado em julho deste ano e, sem patrocínio, ainda não tem previsão de lançamento. ,
“Como essas coisas não me cobram muito compromisso, vou fazendo com calma. O Noel levou 13 anos, o Ary, dez. O Lamartine foi um pouquinho menos, trabalhei nele de 2006 a 2013”, conta Jubran.
O pesquisador, que faz todo o trabalho de remasterização em seu apartamento, em Pinheiros, também tem um projeto finalizado sobre a história do carnaval carioca.
A caixa, com mais de 300 músicas divididas em 27 CDs, compreende um período que vai desde o início de 1899, quando Chiquinha Gonzaga compõe Ó Abre Alas, até a produção de meados dos anos 1970.
“Esse projeto, para o qual ainda esperamos patrocínio também, pode ser mais fácil de conseguir, pois marchinhas e essa história de carnaval fazem mais parte do cotidiano das pessoas”, diz Lucas Sacay, diretor-geral do selo Novodisc, que fabrica os projetos de Jubran.
O próximo projeto de resgate do pesquisador, sobre as primeiras gravações das músicas de Adoniran Barbosa, já foi iniciado. “Resolvi ter três filhos: o Noel, o Ary e o Lamartine, que são três pilares dos quais todo mundo depois bebeu. Do Adoniran, devo ter quase todo o material, não deve demorar tanto tempo para ser finalizado. Tem bastante coisa interessante, que muita gente não conhece”, diz Jubran, que tem um acervo particular de cerca de 15 mil discos.


Nenhum comentário: