domingo, 28 de abril de 2013

Marina na tarde de domingo


O AMOR ETERNO PASSEIA DE ÔNIBUS
Marina Colasanti
 
Vou atribuir esta história ao Rubem Braga. Primeiro, porque acho que foi ele que me contou há muito tempo. Segundo, porque, se não foi ele, deveria ter sido, já
que a história tem toda a cara de Rubem Braga.
Pois bem, antigo apaixonado pela praia e observador atento de seusfreqüentadores, Rubem reparava num casal de velhinhos que todo dia, ao final da tarde, passeava na calçada. Iam de mãos dadas, olhando as ondas, trocando umas poucas palavras, sem pressa, como quem já se disse tudo o que havia de importante para dizer. Às vezeslevavam um cão, outras vezes iam sozinhos. Tinham um ar doce e apaziguado que encantava Rubem. Afinal, dizia-se o cronista olhando o casal, o amor é possível e,na nossa pequena medida, pode até mesmo ser eterno.
A vida quis que um dia Rubem conhecesse uma jovem senhora, a qual se revelaria adiante parente do casal de velhinhos. E foi por ela, numa tarde em que louvava encantado o amor daqueles dois, que Rubem ficou sabendo a verdade. Há muito não se amavam, viviam uma vida de fachada por causa dos filhos e netos. Na verdade, ele a odiava e ela o desprezava.
Lembrei-me desta história ontem, viajando de ônibus. Sacolejávamo-nos coletivamente irmanados em plena normalidade quando, numa parada o casal subiu. Eram velhinhos os dois, de uma faixa em que os anos haviam perdido a definição, e já não tinham idade aparente, transformados apenas em demonstração de sobrevivência. Cabeças brancas,ossaturas frágeis, uma hesitação nos gestos, e magros. Assim eram parecidos. E mais além, naquilo que o tempo, trabalhando sobre
os rostos outrora jovens, havia acrescentado, moldando em carne, rugas e expressão as semelhanças que um refletia sobre o outro, no interminável jogo de espelhos da convivência.
Pelo retrovisor, o motorista viu-lhes as cabeças brancas e a fragilidade, e, com imprevisível delicadeza, esperou, para arrancar até que estivessem seguros. De
esguelha, os passageiros do ônibus olhavam para eles. Viram quando ele deu a vez para que ela sentasse à janela, quando a ajudou com a bolsa, repararam no gesto
instintivo com que se aproximaram um do outro no assento. Vagos sorrisos de ternura suavizaram os lábios dos passageiros do ônibus. Já não sacolejávamos em plena rotina. Algo de diferente havia acontecido.
Alguns quarteirões adiante ele puxou a cordinha, e repetiu-se a cerimônia. O motorista esperou solícito. Ele cedeu a vez à mulher, ajudou-a com a bolsa, foi conduzindo-a pelo braço até a porta, e desceu à sua frente para ajudá-la a saltar. Ninguém se impacientou. Os que estavam sentados do lado direito do ônibus ainda ficaram a vê-los na calçada, enquanto se encaminhavam hesitantes, de braço dado rumo à esquina.
Ao meu lado, o senhor corpulento não resistiu. Sorriu abertamente, e saiu-se num longo discurso de exaltação do amor e das suas possibilidades nesse mundo de máquinas e violência. Outros passageiros comentavam entre si. O coração coletivo daquele ônibus seguia agora mais leve, como se tivesse assistido à confirmação de um milagre.
Lembrei-me então da história do Rubem. Ele a odiava e ela o desprezava. Nada, além dos gestos delicados, garantia à pequena população do ônibus que aquele casal se amava realmente. E os gestos delicados podem ser apenas reflexo de formação, como demonstra qualquer mordomo. O amor encontra outros meios de se manifestar. Mas nós vimos aquilo que queríamos ver. Para as pessoas todas que ali estavam, de repente tornou-se importante acreditar que o casal de velhinhos se amava, se não com a mesma violência, pelo menos com a mesma ternura com que havia começado a se amar tantos anos antes.
Já não se tratava dos velhinhos pessoalmente. Eles haviam-se transformado em símbolo. Cada passageiro daquele ônibus via neles a sua própria possibilidade de amar e ser amado até a decrepitude, até o fim da vida. Na manhã antes insípida, os velhinhos encarnavam o mito do amor eterno. E o mito passeava de ônibus, para que todos o vissem,e levassem adiante a boa nova.
Talvez, discretos, meus companheiros de viagem não tenham saído por aí alardeando o acontecido. Mas é certo que se sentiram reconfortados, e de si para si cada um
murmurou por um instante: "O amor eterno existe. Eu vi um."
1986
Do livro:"Eu sei,mas não devia"
 

Nenhum comentário: