sábado, 10 de novembro de 2012

Desvario

  Walnize Carvalho

Desperto ouvindo música.
Seleciono as que irão me fazer companhia nesta manhã chuvosa.
 Raul Seixas – saudoso e irreverente Raul – é o primeiro a entrar na pauta.
 Seus versos musicais “controlando minha maluquez/ misturada com minha lucidez” me fazem lembrar de fato rotineiro, que me inspira a torná-lo o tema desta despretensiosa crônica de sábado: Manhãzinha de uma segunda qualquer.
Acordada pelo bem te vi (meu despertador matinal) abri a janela do apartamento quando ela passava. Como passa quase todas as manhãs, quando o silêncio da rua é interrompido por sua travessia.
É uma mulher com trajes rotos, lenço amarrado na cabeça, um feixe de papéis, panos e tralhas debaixo do braço.
Anda quase sempre no meio da rua. Eu que a observo há tempo não sei seu nome, de onde vem e para onde vai.
Sua fala é cheia de nuances como se estivesse a dialogar com outra pessoa, pois a entonação da voz parece falar e ouvir resposta.
 Não aborda ninguém e nem é importunada.
 Passa e desaparece na esquina até o dia seguinte.
E são nas esquinas da vida que transitam diariamente figuras anônimas, mas não despercebidas e que, quando se vão ficam no inconsciente coletivo.
  Relembro que nos idos dos anos 60, uma figura popular conhecida por Sebastiana da Silva (ou Bastiana Doida) chamava a atenção da cidade até nos noticiários policiais.
Era uma mulher alta, branca, forte, briguenta, irreverente (contam que se despia em plena rua) e de olhos azuis. E por causa da cor do olhar, semelhante ao meu, é que em briguinhas de irmãs, uma delas me apelidava pelo seu nome.
 Corria e chorava pelos cantos. Hoje ao me lembrar, até acho graça!...
O Calçadão e o Boulevard de Paula Carneiro servem e sempre serviram de palco para figuras emblemáticas, que marcam ou marcaram presenças. Meu saudoso pai - Waldir Carvalho - contava e fez o registro no “Campos depois do Centenário - volume II” sobre “João de Deus- curioso andarilho (década de 50) conhecido pela alcunha de ‘Rin Tin Tin’, que trajava terno, usava chapéu, lenço no pescoço e andava com seu cãozinho de estimação preso a uma coleira”.
Assim como os acima citados, os que agora me leem, por certo lembrarão de outros indivíduos excêntricos.
Meu pensamento gira e registra um personagem que se foi do convívio dos que passavam pelo Centro comercial: o popular Mundinho.
Na época (recordo bem!) foi matéria de jornais locais com direito a fotos e depoimentos dos que por ele cruzavam...
Ah! Os chamados “malucos” e seus mundos à parte: Riem o nosso riso; gritam o nosso grito; extravazam - em alguns momentos - o nosso desejo de irreverência contida...
Dá para entender que “o esforço para ser um sujeito normal/ e fazer tudo igual” é um aprendizado de loucura que exercitamos todos os dias.

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