Crônica de sábado


foto:walnize

Ressaca e despedida
Walnize Carvalho

Hic! Um soluço interminável, um peso enorme na cabeça (como
se pousasse sobre ela um elefante), um gosto amargo na boca – gosto de
cabo de guarda-chuva, dizem alguns -, náusea, mal estar, “estômago
embrulhado” e o olhar distante fixado em lugar algum.
Sabem de quem estou falando? Da famosa ressaca que,
principalmente, nos últimos dias (dias que sucedem ao carnaval) a
muitos abate.
Estranhamente reconheço, que tenho quase todos os sintomas
citados, embora não ingira bebida alcoólica, nem tão pouco tenha
participado da festa.
Sou tomada de uma leve prostração, de desalento, de incômodo.
Movida de certa nostalgia percebo, que também estou de
ressaca, mas de uma ressaca atípica: a ressaca da despedida. É hora de
retornar da temporada de veraneio.
É tempo abrir o armário, pendurar a fantasia e buscar
vestimentas adornadas de
bom senso, otimismo, sobriedade e esperança...
É tempo de apagar luzes, fechar janelas, recolher redes nas varandas...
É tempo de arquivar na memória: shows, trios elétricos,
churrasqueiras nos quintais, mergulhos no mar, picolés, sorvetes, água
de coco, refrigerantes e cervejinhas...
É tempo de se despedir do colorido das barracas a beira mar;
dos quioques apinhados de gente colorida; dos encontros vesperais em
casa de parentes, dos bate papos com amigos no calçadão ( enquanto a
neta brincava descontraída nos brinquedos da pracinha), das idas à
Feira da Roça e à Peixaria...
É tempo de passar olhos de adeus sobre a Natureza: sobre o
canto dos bem te vis; o farfalhar das folhas das amendoeiras, que
correm livres pelas calçadas; o baque no chão, das frutas caídas das
referidas árvores; os beija flores sugando papoulas multicoloridas; o
gato que se espreguiça no muro do vizinho; a altivez da garça no
brejo; da inocência do menino e sua pipa...
E mais... é tempo de caminhar por entre as casuarinas, assistir
a dança sincronizada de seus galhos; de ver barcos emborcados sobre a
areia e de ir à beira mar e diante do majestoso oceano, agradecer os
dias felizes...
É tempo - mais do que tempo - de esperar a noitinha chegar,
observar (mais uma vez) a primeira estrela que pintar no céu ( na
companhia da lua crescente) e em atitude de contrição e respeito
desejar estar de volta no futuro Verão.
No mais, é constatar que a “ressaca”, que quase me levou de
roldão,já se diluiu por si mesma permitindo,que eu possa dar início-
finalmente- à caminhada do ano novo que me espera.

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