domingo, 24 de outubro de 2010

Tirando da estante


Na estante do meu quarto retiro este livro e reproduzo um pouco da sua história:

Fábulas italianas

Ítalo Calvino

"Em 1954, o editor Giulio Einaudi decidiu publicar uma antologia de fábulas italianas que pudesse ser comparada às coletâneas francesa e alemã, já clássicas, de Perrault e dos Irmãos Grimm. Encomendou a tarefa a um escritor jovem, mas muito talentoso - Italo Calvino. Coube a ele selecionar suas duzentas fábulas preferidas e recontá-las à sua maneira. O resultado é um livro delicioso, repleto de reis e camponeses, santos e ogros, plantas e animais extraordinários. Seja através do humor, do fantástico ou do mistério, os contos narram muito dos costumes regionais e da história italiana, mas falam, sobretudo, do universo comum da imaginação."

Na contra capa assim escreveu ítalo Calvino:
“Durante dois anos vivi entre bosques e palácios encantados. Agora que o livro terminou, posso dizer que não foi uma alucinação.Tratou-se de uma confirmação de algo que já sabia desde o início,aquela coisa indefinida `a qual me referia antes,aquela única convicção que me arrastava para a viagem entre fábulas.E penso que seja isso: as fábulas são verdadeiras”

Uma delas:

A ciência da preguiça

"Era uma vez um velho turco que tinha só um filho e gostava mais dele que da luz dos próprios olhos.Sabe-se que para os turcos o maios castigo que Deus impôs ao mundo é o trabalho; por isso, quando seu filho completou catorze anos, pensou em colocá-lo na escola, para que aprendesse o melhor método para não fazer nada.

No mesmo bairro do velhor turco, morava um professor, conhecido e respeitado por todos, pois durante toda a vida só fizera aquilo que não pudera evitar de fazer. O velho turco foi visitá-lo e o encontrou no jardim, deitado à sombra de uma figueira, com uma almofada sob a cabeça, outra sob as costas e uma sob o traseiro. O velho turco disse consigo mesmo: “Antes de conversar com ele, quero ver como se comporta” , e se escondeu atrás de uma sebe para espiá-lo.

O professor estava imóvel como um morto, de olhos fechados, e só quando ouvia: tchac !, um figo maduro que caía ao alcance da mão, esticava o braço de mansinho, levava-o à boca e o engolia. Depois, de novo imóvel como um tronco, esperava que caísse outro.

“Este é justamente o professor que desejo para meu filho”, disse o turco consigo mesmo e, saindo do esconderijo, cumprimentou-o e lhe perguntou se estava disposto a ensinar a seu filho a ciência da preguiça.

-Amigo – falou o professor com um fio de viz -, não fale tanto, pois me canso de ouvi-lo. Se quer educar seu filho e fazer com que se torne um turco de verdade, mande-o aqui, e basta.

O velho turco voltou para casa, pegou o filho pela mão, enfiou-lhe uma almofada de penas debaixo do braçoe levou-o àquele jardim.

-Recomendo-lhe – disse-lhe – que faça tudo o que vir fazer seu professor de ócio.

O moço, que já tinha inclinação por aquela ciência, deitou-se também embaixo da figueira e viu que o professor, toda vez que caía um figo, esticava um braço para colhê-lo e comê-lo. “Por que essa canseira de esticar o braço ?”, disse para si mesmo, e ficou deitado de boca aberta. Um figo caiu em sua boca e ele, lentamente, engoliu-o, e depois reabriu a boca. Outro figo caiu um pouco mais longe; ele não se moveu, mas disse, bem baixinho:

- Por que tão longe? Figo, caia na minha boca!

O professor, vendo quanto era esperto o estudante, disse:

- Volte para casa, pois não tem nada a aprender comigo, pelo contrário, sou eu quem deve aprender com você.

E o filho retornou ao pai, que agradeceu ao céu lhe ter dado um filho tão talentoso."

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