segunda-feira, 18 de junho de 2012

Zetinho

BRUNO MARCUS RANGEL PESSANHA(*)

Em 1938, Murundu, a 50 km de Campos, no norte do Estado do Rio de Janeiro, tinha estação de trem (única forma de acesso ou saída da Vila) e uns 300 habitantes, se tanto. Rua de terra, casario, igreja, armazém e farmácia compunham o distrito - um fim de mundo, por assim dizer. Os fazendeiros e sitiantes criavam gado ou plantavam cana-de-açúcar, atividades predominantes em todo o município; mas, do ponto de vista esportivo, Murundu era uma miniatura do Brasil: tinha torcedores e jogadores de futebol. Naquela época, já se podiam acompanhar os jogos pelo rádio de seu Donizetti, o dono da farmácia; ambos únicos na Vila – o rádio e a farmácia.
Situada exatamente entre dois outros lugarejos com características semelhantes, Murundu se comunicava com o mundo através desse aparelho e do telégrafo da ferrovia. O fato de a Vila ter sido escolhida como ponto de parada dos comboios da Leopoldina Railway estava a indicar seu potencial de futuro entreposto comercial da região.
O farmacêutico trabalhava sempre com um longo e engomado jaleco branco e só saía à rua de terno, gravata e chapéu, pois era assim que os senhores de respeito se vestiam, na época. Mas, apesar do formalismo, gostava muito de futebol. Tanto que, sempre que podia, fazia coincidir as viagens a Campos com os fins de semana, sobretudo quando acontecia a partida final do campeonato campista, disputado rotineiramente pelos times do Goitacaz e Americano, de grande torcida no Norte Fluminense.

Depois que seu filho Zetinho completara 5 anos, passara a acompanhar o pai na arquibancada do estádio da Rua dos Goitacazes. Identicamente ao que sucedia com Flamengo e Fluminense na Capital, os times de Campos tinham torcidas diferenciadas: o Americano, uniforme branco e preto, contava a maioria dos seu torcedores na classe abastada. Era o clube da elite, para o qual seu Donizetti gostaria que o menino torcesse. E o Goitacaz, azul e branco, era o time popular.
As idas de seu Donizetti a Campos eram mensais, tanto por causa de seu trabalho quanto para atender a seu desejo de estar por dentro do que se passava no país e no mundo. O rádio não dava conta dessas necessidades de homem do interior. Era bom conversar com fornecedores e amigos e ler o "Monitor Campista" para se atualizar com as notícias locais e internacionais. Assim, acompanhava a movimentação do governo de Getúlio Vargas, que assumira o poder em 1930 e, como caudilho de fronteira, tão cedo não pensava dele apear-se.
Além do farmacêutico, quantos na Vila faziam mensalmente o mesmo tipo de contato com a sede do município ou com um centro maior de informações? O padre, o dono do armazém e talvez meia-dúzia de grandes agricultores e pecuaristas. Estes, porém, residiam nas suas propriedades, e em geral faziam na Vila apenas compras de armazém e farmácia. De volta dessas visitas, tornavam-se a fonte de informações para os outros moradores. Assim, um fazendeiro encostado no balcão para um trago de pinga trazia sempre novidades e relatos de fatos acontecidos em Campos e na Capital – quase sempre ligados à política municipal, federal ou aos usineiros (preço da cana). A informação dizia respeito às medidas do Governo Vargas ou às brigas entre o prefeito e a oposição, ou aos craques de futebol e suas condições físicas para os próximos jogos.
Boa parte das notícias internacionais referia-se à Rússia, Alemanha e Itália, países sob regimes ditatoriais, cujos líderes alimentavam ambições expansionistas. No Brasil, essas disputas imperialistas já começavam a se refletir, levando o país a um estado de efervescência política. Embora Vargas tendesse disfarçadamente para o fascismo, durante a década de 30 seu governo viu-se sob o fogo cerrado de adeptos do integralismo e comunismo. A ebulição política chegou ao ápice quando Luiz Carlos Prestes (em 1935) e Plínio Salgado (em 1937) lideraram tentativas armadas, um tanto caricatas, de derrubá-lo do poder.
Seu Donizetti, patriota, sentia-se atraído pelo integralismo, vertente brasileira do fascismo. A expressão maior desse regime era a Itália, onde predominava a figura de Benito Mussolini, il Duce. De Roma, as manifestações públicas do regime, as marchas e passeatas cívicas, o culto à eugenia, ecoavam aqui como algo saudável, atraente, digno de ser imitado, pelo caráter de infalibilidade e de paraíso coletivo que transmitiam. Em pouco tempo, pela pregação de Plínio Salgado, Gustavo Barroso e outros líderes de projeção, o número de adeptos do fascismo cresceu no País. Se os fascistas italianos vestiam camisas negras, aqui no Brasil, para dar um toque de autonomia ao movimento, o verde foi escolhido para colorir as camisas nas manifestações coletivas de amor à Pátria.
Na pequenina e distante Murundu, o slogan "Tradição, Família e Propriedade" e a leitura do "Manifesto Integralista", de Plínio Salgado já haviam convencido o senhor Donizetti de que o integralismo era o regime ideal para o Brasil. Do mesmo tamanho de seu amor à Pátria, a empolgação com o "Manifesto" foi tanta que, três meses depois, decidiu demonstrá-la ao povo local através de uma caminhada, à semelhança das passeatas promovidas por Plínio Salgado nas maiores capitais do país. Assim, em 1936, Murundu assistiu a evento memorável: seu Donizetti e Zetinho, então com 7 anos, peitos inflados de orgulho, marcharam à frente de 30 moradores, todos vestidos de camisa verde.
Na posse do único rádio do lugar estava certamente a raiz principal de todo o prestígio do farmacêutico, capaz de mobilizar 10% dos murunduenses para uma manifestação política. Até o padre, simpatizante notório de Plínio Salgado, pensou integrar a passeata, não o fazendo para evitar falatórios. Dos participantes, parte não sabia o motivo por que marchavam. Sabiam, contudo, que a adesão à marcha era condição essencial para continuarem ouvindo os jogos dominicais do Flamengo, do América e demais times do Rio de Janeiro - oportunidade de escutar a voz rascante de um locutor ranheta chamado Ari Barroso.
O status do farmacêutico era grande no local. Naquela época, a farmácia e o armazém eram os pontos de encontro em qualquer lugarejo perdido no interior do país. Na farmácia, a beleza das estantes de madeira nobre, cheias de frascos coloridos, chamava a atenção dos moradores tanto quanto o poder do profissional de manipular as misteriosas substâncias neles contidas. Seu Donizetti disputava com o padre e o dono do armazém a atenção dos moradores de Murundu. Ele tinha consciência, ainda que difusa, de ser um agente social do lugar. Daí ele se ter envolvido com o movimento integralista, liderado por Plínio Salgado, em cuja pregação messiânica de renovação moral da Pátria acreditava piamente. O rádio era o outro elemento de prestígio de seu Donizetti, superando até mesmo o do padre, que não via com olhos tão cristãos o uso daquele aparelho para atrair os moradores, sobretudo quando o horário dos jogos coincidia com o da missa vesperal aos domingos. Mas o que fazer? Seu Donizetti era bom católico, contribuinte de mão aberta e assíduo às missas.
Da marca Phillips, o rádio era enorme. Suas dimensões - 60cm de altura x 35 de largura e 30 de profundidade – eram de per si uma atração. Ovalado na parte superior, a frente, em madeira entalhada e vazada, com um forro de seda marrom, lembrava pequeno altar. Funcionava à base de uma bateria grande, cuja recarga era feita em Campos. A curiosidade que despertava pelo entretenimento produzido só era comparável ao transtorno que era o seu transporte, de trem, para recarga ou troca de válvulas. Um trambolho, sem dúvida, mas tarefa que seu Donizetti cumpria, orgulhoso, com a ajuda do filho.
Além da farmácia, o farmacêutico possuía um terreno próximo ao trilho da ferrovia e um sítio mais distante. Por insistência de Zetinho, o pai mandou fincar no terreno umas traves, construindo o segundo campo de futebol de Murundu - o que desde logo tornou o menino famoso entre os coleguinhas do Grupo Escolar, que passaram a chamá-lo “o dono do campinho”. Os jogos da meninada passaram a fazer tanto sucesso quanto os do campo do Murundu Futebol Clube, em cujo gramado as partidas se restringiam ao embate de casados contra solteiros. Tanto num campo como no outro, a bola utilizada era de couro e a câmara de ar de borracha tinha um umbigo para enchê-la; depois o umbigo era embutido e o local em volta costurado por um fio de couro, ali causando um abaulamento. Prejudicada em sua esfericidade, a bola não era ideal para a prática do futebol, mas era o modelo mais fácil de encontrar e o mais barato. Porém, o que importava essa imperfeição geométrica, se correr atrás dela, chutá-la, fazer gol na meta da vida era preciso... E era a bola usada na maioria dos campos de várzeas das cidades brasileiras, onde se chutava até bola de pano.
Aluno aplicado, nas suas horas de folga Zetinho só falava em futebol. Aos 6 anos, sua mãe, dona Magnólia, lhe dera uma faixa vermelha para pôr na testa. Era a cor do América Futebol Clube, time carioca pelo qual ela passara a torcer por gostar muito das marchinhas carnavalescas de Lamartine Babo (o mais entusiasta torcedor do time americano). No ano seguinte, a camisa com que jogava era vermelha; mas, tendo virado torcedor do Flamengo, campeão carioca naquele ano, por influência dos parceiros de campo, Zetinho pediu à mãe que acrescentasse faixas pretas à camisa rubra.
***
Em 1938, ano da 3a Copa do Mundo (realizada na França), o futebol, paixão nacional, já havia sido incorporado à cultura brasileira, e Murundu não fugia à regra. Ansiosos, os seus habitantes queriam torcer pelo escrete nacional nos campos franceses.
A participação nas Copas anteriores tinha sido decepcionante: derrota em campos uruguaios em 1930 e um triste 14o lugar em 1934. Na França, esperava-se que seria diferente. Apesar das pressões de dirigentes de clubes e federações, a seleção treinada por Ademar Pimenta tinha realmente os melhores jogadores do país: Batatais no gol, Domingos da Guia na defesa e Leônidas da Silva no ataque. Um timaço, que não podia fazer feio. Até Zetinho sabia o nome dos jogadores. Ele ficava sempre atento ao que os meninos mais velhos falavam sobre os craques da seleção. Quem era o grande driblador, quem fazia mais gol, quem fazia as melhores defesas. E, curiosidade aguçada, ia para casa perguntar ao pai:
- Pai, o Leônidas é mesmo o nosso maior jogador? Os meninos estão dizendo que ele fez um gol de bicicleta, como é que pode isso, pai? Nunca vi ninguém entrar de bicicleta no campo...
Seu Donizetti achou difícil explicar:
- A jogada nada tem a ver com o brinquedo que comprei para você no ano passado. Acontece quando a bola é cruzada pelo alto na área adversária e o jogador está de costas para o gol. A bola vem em sua direção e ele não tem tempo de se virar. Salta e as pernas pedalam no ar uma bicicleta imaginária; um dos pés bate na bola e ela vai direto para a meta adversária e estufa as redes. Foi Leônidas, o nosso craque, quem primeiro fez essa jogada que encantou os europeus. E como ele é negro, passou a ser chamado de "Diamante Negro". Sabe, meu filho, eu nunca vi, mas imagino que deve ser um lance muito bonito, verdadeira acrobacia, coisa de circo! - completava o pai que, empolgado com a beleza plástica da jogada (vista apenas em foto de jornal), esquecia-se que falava com uma criança.
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Toda vez que, no andar de cima da farmácia do senhor Donizetti, o rádio ia ser ligado para transmitir uma partida de futebol, Zetinho se apressava em ajudar na arrumação da sala, trazendo as pesadas cadeiras dos outros cômodos. Tudo pronto, ele se acomodava bem em frente da estante com o rádio. O pai observava aquela dedicação e, por momentos, se preocupava com o exagerado interesse do filho. “Será que essa mania não vai prejudicar seus estudos?” – perguntava-se. Mas aquele assento especial não era muito esquentado pela bundinha magra do garoto. A cada amigo ou correligionário que chegava, o farmacêutico olhava na direção do menino, que prontamente atendia à ordem muda do pai e passava para a fileira de trás. No dia do jogo contra a Suécia, a sala estava cheia e Zetinho, como sempre, sentado no banco da última fileira. Nem mesmo via o rádio.
No prélio anterior, o Brasil havia sido derrotado por 2 a 1 pelos italianos. Na tarde da disputa pelo 3º lugar com a Suécia, a sala grande já estava preparada, com todas as cadeiras e bancos à frente da mesa com o rádio. Era esperada casa cheia; no mínimo uns trinta amigos e fregueses do farmacêutico viriam ouvir a irradiação.
À semelhança da Alemanha nazista, o culto à eugenia tinha no esporte o meio mais adequado para mostrar a superioridade do regime italiano. E a evidência maior do uso político dos seus atletas foi a troca, já a partir das quartas-de-final, da tradicional camisa azul do time (a conhecida Squadra Azurra) pela negra do partido fascista. A nova cor da camisa foi considerada um acinte aos franceses, que hostilizavam a seleção do técnico Pozzo (ou do Duce, para eles o verdadeiro escalador do time) desde que chegara ao país.
Esses fatos não eram de conhecimento dos moradores da Vila, mas o time italiano tinha a preferência de seu Donizetti que, além de admirador do fascismo, por ser oriundo, considerava a Itália a sua segunda pátria. Nessas horas, mão direita junto ao peito, pensava: “Aqui nós desfilamos com a camisa verde. Mas, quem sabe, um dia, eu ainda vou marchar em Roma, diante do Duce, com a camisa negra!”
O que não estava nos planos do anfitrião, naquele dia, era o aparecimento - verdadeira surpresa - de um pequeno plantador de cana. Meia hora antes do jogo, gente em pé já encostada nas paredes, Gregório Pessanha chegou, acompanhado de um amigo.
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Por ter sido criado em Murundu até a adolescência, Gregório já era conhecido na Vila, de onde saíra brigado com o pai. Em Campos, empregou-se numa usina situada à margem esquerda do rio Paraíba. Era alimentador direto da esteira de cana para ser moída, trabalho estafante; no fim do dia “o moído era ele”, como dizia ao voltar para casa com as roupas escuras como carvão. Morava com vários outros trabalhadores em uma casinha distante da usina e do centro da cidade. A rotina de vida de todos era da casa para o trabalho e vice-versa. Apenas Gregório quebrava o dia-a-dia do casebre: vivia lendo uns papéis esquisitos que falavam da existência no país de uma incipiente organização política que acenava com a libertação dos trabalhadores de todo o mundo. Através desses papéis, Gregório tomou conhecimento de que a experiência já havia sido realizada em um país longínquo - a União Soviética, no qual os trabalhadores, através de uma revolução, assumiram o poder. E as palavras "socialismo" e "comunismo" passaram desde então a fazer parte de sua vida durante os três anos em que trabalhou duro em troca de um salário miserável que mal pagava a comida. As reuniões com outros trabalhadores se amiudaram a partir de 1934, com a notícia de que Luiz Carlos Prestes viria à cidade para falar diretamente aos trabalhadores das usinas. A visita anunciada não aconteceu, mas representantes da recém-fundada Aliança Nacional da Libertação passaram a ir à cidade com a incumbência de fomentar uma greve dos trabalhadores das usinas de açúcar existentes no município.
Nessas reuniões, Gregório tomou conhecimento de um pouco da história de Luiz Carlos Prestes, o líder daquele movimento no Brasil. Soube que ele, na década anterior havia chefiado um grupo de revoltosos contra o Governo; movimento que qual posteriormente ficou conhecido com o seu nome: Coluna Prestes. Soube ainda que depois desse protesto, viajara para o exterior e que um dos países por ele visitados fora justamente a União Soviética, onde a experiência socialista estava em andamento. De lá, voltara ao Brasil com a missão de aqui instalar a primeira república popular das Américas. Para isso, a derrubada do ditador Vargas fazia-se necessária. A tentativa de 1935, que ficou conhecida como "Intentona Comunista", fracassou e os adeptos da Aliança Nacional da Libertação passaram a ser perseguidos.
Dois anos depois, com a morte do pai, Gregório voltou para Murundu. Para ele, a herança do sítio tivera duas vantagens: escapar da perseguição e viver com tranqüilidade, plantando os 4 alqueires de cana para vender à Usina de Outeiro, a mais próxima da Vila. Mas a sua fama chegou aos ouvidos do seu Donizetti em uma das viagens a Campos. Nem precisaria, pois, no dia do desfile dos "camisas verdes" na Vila, Gregório foi o único que teve coragem de se posicionar frontalmente contra os integralistas.
- Anauê! Prepara as pernas pra correr, seus "galinhas verdes"!
A frase marcou seu Donizetti e o companheiro que vinha batendo o tambor. Este, indignação maior dentro do peito, rosnou um “esse filho-da-puta me paga!”, mas continuou marchando e bumbando
E agora, o miserável do Gregório Pessanha estava ali, na sua sala! Seu Donizetti se perguntava o que fazer. A fama de homem educado, jaleco branco na farmácia e terno e gravata para ouvir rádio, mandava receber bem a incômoda visita.
- Seu Donizetti, o senhor vai me perdoar o que eu fiz durante a marcha, mas eu e meu amigo queremos também ouvir o jogo do Brasil. Leônidas vai jogar, não vai?
O batedor do bumbo integralista, ímpetos de tirar aquele comunista miserável dali, levantou-se do banco. Mas o braço do farmacêutico acenou para que continuasse sentado, como a dizer “A casa é minha, eu é que resolvo.” E Gregório e o amigo, encostados na parede, por lá ficaram.
Consciente da importância do futebol para seu movimento, seu Donizetti não queria saber de brigas. Ao contrário, havia pensado em revestir aquelas reuniões com a formalidade necessária, ou seja, acrescentar-lhes um toque cívico. Afinal, era a nossa Pátria que estaria representada na capital francesa. “Dar um tapa de pelica naquele intruso era mais proveitoso.” – pensou. Rádio já ligado no volume mais alto, o farmacêutico pediu a todos que se levantassem para cantar o Hino Nacional.
O som do aparelho oscilava. Ora chegava alto aos ouvidos dos presentes, ora sumia de vez, ora a estática tomava lugar da voz do locutor. Acompanhando o volume do aparelho, os moradores também iam e vinham nos seus lugares, inclinando-se pra frente toda vez que a voz de Ari Barroso sumia ou era vencida pelo zumbido do aparelho. Ondulação dupla – do volume do rádio e da platéia sentada – acontecia na sala. Movimento idêntico ocorria com o pessoal em pé, que de tempos em tempos se deslocava pra frente, formando dois amontoados ao lado da pesada estante do rádio. Zetinho, na última fila, quase não via nem ouvia nada. O grito de gol ecoava na sala sem que se soubesse se era ou não do Brasil. Mas a saudação era quase sempre correta: o Brasil ganhara da Suécia por 4 a 2, e Leônidas foi o artilheiro da Copa, com 9 gols.
Cativa do som instável do aparelho, a platéia ondulava na sala como a antecipar a ola futura dos estádios de futebol – a exuberante saudação com que a torcida passou a saudar seus times na entrada no campo e após os gols.
O 3o lugar nos campos da França fora considerado um feito espetacular. Muitos "Hip, hip! Hurra! Viva o Brasil!" retumbaram durante vários dias em Murundu e no Brasil. Com a vitória brasileira, os europeus descobriram que havia na América do Sul outra força futebolística além de Uruguai e Argentina.
Na sala do farmacêutico, no entanto, a comemoração restringiu-se a muitos gritos de orgulho e amor à Pátria. Nada de brinde com bebida, nem mesmo cerveja ou champanhe: seu Donizetti não permitia o uso de álcool em casa.
Gregório e seu amigo agradeceram e sumiram logo que o jogo acabou.
Murundu e seu único rádio prometiam surpresa especial para o dia seguinte: o jogo final da Copa: Itália x Hungria. Tanto ou mais do que o jogo do Brasil, a notícia mexeu com os nervos do seu Donizetti e de seu parceiro de marcha (o que tocava bumbo). Para eles, o jogo com a Suécia parecera um anticlímax, já que a Pátria disputava apenas o 3o lugar. Como admiradores do fascismo, estavam convictos de que o prato principal seria saboreado no dia seguinte, quando os atletas italianos vestidos de camisas negras entrariam em campo.
Ante a possibilidade de acompanhar e torcer pela Itália, os dois líderes integralistas desde logo iniciaram a mobilização dos companheiros locais. Seu Donizetti queria concentrar em sua sala um número de pessoas maior do que a marcha de seis meses atrás. Uma verdadeira festa cívica jamais vista em Murundu. Afinal, o Duce estaria pessoalmente no estádio parisiense para saudar os seus atletas em mais uma jornada gloriosa da Itália. Sim, porque nenhuma força pararia aqueles homens no caminho da vitória. O que acontecera com os alemães nas Olimpíadas de Berlim não se repetiria com a equipe italiana. Não! Em Paris, mesmo que os franceses torcessem contra, o Duce não seria humilhado por um Jesse Owens qualquer, como o fora Hitler, o Führer alemão, dois anos antes!
Sem dúvida, a Itália, pela força superior de seus atletas, pela dedicação à Pátria, sairia vitoriosa como em 1934. A convicção era tanta que os jogadores entrariam em campo com as camisas negras dos fascistas.
Do outro lado do mundo, a crença que empolgava os fascistas italianos era partilhada com idêntico fervor cívico pelos murunduenses liderados por seu Donizetti. Na manhã de domingo, as camisas verdes e as gravatas negras dele e de Zetinho já estavam passadas a ferro, para uso na hora solene do jogo. Conforme fora combinado com os companheiros, todos viriam de calça cáqui e trariam camisas e gravatas para trocar ali mesmo. Na hora do Hino Nacional, já deviam estar devidamente paramentados. O arranjo havia sido feito à boca pequena entre os adeptos e simpatizantes do integralismo, de modo a evitar que Gregório e seu camarada tomassem conhecimento do programado para o dia seguinte. Camisas negras em Roma, camisas verdes em Murundu.
Meia hora antes do jogo, o rádio já estava ligado e todos os lugares ocupados, com Zetinho na fileira de trás. A um aceno do farmacêutico, todos se levantaram para cantar o Hino Nacional. O "Anauê!" puxado por seu Donizetti foi ouvido. Mãos no peito, os retorcidos versos do hino iam sendo cantados quando os degraus de madeira rangeram.
- Quem pode ser, – se perguntou seu Donizetti, – se todos os convidados já estão aqui? Será que a mulher abriu a porta?
Em meio a essas indagações, os versos “Dos filhos deste solo és mãe, gentil, Pátria amada, Brasil!” foram cantados também por Gregório e seu companheiro de andanças de trabalho e política, que acabavam de chegar. Pediram, então, licença ao dono da casa para ouvir o jogo. Seu Donizetti se segurou para não expulsá-los dali, daquele ambiente particular, prestes a viver tão grande momento cívico-esportivo.
Cheirando confusão no ar, o faro do farmacêutico não estava errado. Os dois ali torciam pela Hungria; as camisas que vestiam por baixo eram vermelhas.
***
Durante o jogo, o ambiente se manteve dentro dos padrões de educação dos ouvintes. Que a Itália fosse a vencedora, como foi pelo escore de 4 a 2, isso já era esperado por quase todos. Hungria? muitos nem sabiam que diabo de país era esse e muito menos onde ficava.
O que ninguém, no entanto, soube contar direito, foi como começou o rififi, como os franceses chamariam a confusão se tivessem tomado conhecimento do ocorrido na Vila de Murundu, logo após o apito final do jogo. Ninguém sabia de quem partira a primeira ofensa, o primeiro puxão de gravata, o primeiro empurrão, o soco inicial. Na sala da casa de seu Donizetti formou-se, ao redor das duas camisas vermelhas, um bolo de homens que gritava e lutava, armado com os pés das mesas e cadeiras já destruídas. Mas para surpresa de todos, na luta Gregório e seu companheiro não estavam sozinhos. Três ouvintes a eles se uniram. Os descarados não eram nem um pouquinho integralista; as camisas verdes, meros disfarces para ter acesso à casa do farmacêutico, ouvir a irradiação dos jogos tranquilamente. Fúria aumentada, durante a luta o fio que durante anos sustentara o retrato do avô italiano, lentamente comido pela ferrugem do prego, acabou de rebentar, o retrato caiu e a moldura e o vidro partiram-se. Já havia gargantas roucas, olhos roxos, roupas rasgadas, homens berrando seu ódio político-esportivo. À porta, as mulheres da casa, apertadas num grupinho assustado, não tinham coragem de se aproximar.
Até que um estrondo maior abafou todos os outros sons e os contendores, ofegantes, se aquietaram assustados: o pesado e enorme rádio caíra junto com sua estante, cacos de válvulas juncando o assoalho, fios repontando para todos os lados.
O mais estranho, porém, e que estarreceu a todos, foram os dois bracinhos vestidos de verde, visíveis sob os restos do aparelho e da estante onde ele era colocado. Silenciosos, incapazes de entender o que viam, ficaram ali olhando apatetados o lento filete vermelho que começava a escorrer sob os restos do rádio, ainda abraçado protetoramente por duas brancas e magras mãozinhas.
*(escritor e engenheiro agrônomo radicado em Niterói)

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