terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Então...

O amor acaba

                                                        Por Paulo Mendes Campos



"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova,
depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados,
 diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; 
de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva 
contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto,
 polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; 
na acidez da aurora tropical, depois duma noite 
votada à alegria póstuma, que não veio; 
e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema,
 como tentáculos saciados, e elas se movimentam 
no escuro como dois polvos de solidão; 
como se as mãos soubessem antes 
que o amor tinha acabado; na insônia dos
 braços luminosos do relógio; e acaba o amor
 nas sorveterias diante do colorido iceberg, 
entre frisos de alumínio e espelhos monótonos;
 e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;
 às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, 
filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, 
no elevador, como se lhe faltasse energia;
 no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar;
 na epifania da pretensão ridícula dos bigodes;
 nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; 
quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia,
 onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar;
 na compulsão da simplicidade simplesmente;
 no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; 
no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias,
 mas que não floresceu, abrindo parágrafos de 
ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;
 em apartamentos refrigerados, atapetados, 
aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; 
e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, 
caindo imperceptível no beijo de ir e vir; 
em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; 
nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, 
no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala
 e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno
 o amor não começa; na usura o amor se dissolve; 
em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade;
 em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro;
 uma carta que chegou depois, o amor acaba
 uma carta que chegou antes, e o amor acaba;
 na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba
 na mesma música que começou, com o mesmo drinque, 
diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba 
em ouro e diamante, dispersado entre astros; 
e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; 
no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia 
imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, 
tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados;
 e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo;
 na janela que se abre, na janela que se fecha;
 às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa,
 que continua reverberando sem razão até que alguém, 
humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba 
como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar
 com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, 
e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã,
 de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; 
no abuso do verão; na dissonância do outono; 
no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; 
a qualquer hora o amor acaba; 
por qualquer motivo o amor acaba; 
para recomeçar em todos os lugares
 e a qualquer minuto o amor acaba."

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