terça-feira, 17 de dezembro de 2013

De volta em aula após infarto, Ariano Suassuna diz que quer desfilar no Carnaval

Da:Folha de São Paulo
FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL AO RECIFE
Na tarde/noite desta segunda-feira (16), poucas horas depois de circular nas redações da imprensa do Recife um boato de que Ariano Suassuna havia morrido, o escritor e dramaturgo subiu ao palco do Teatro Beberibe, no Centro de Convenções de Pernambuco (Olinda), para apresentar a aula-espetáculo "Tributo a Capiba".
Foi o retorno de Suassuna, 86, à atividade pública que ajudou a torná-lo conhecido pelo país, quase quatro meses após sofrer um infarto e tratar de um aneurisma cerebral.
Parecia mais frágil e mais magro do que antes do infarto, mas não perdeu o fio da conversa em nenhum momento.
Leo Caldas/Folhapress
Aula-espetáculo de Ariano Suassuna em Olinda nesta segunda-feira (16), que marcou seu retorno à atividade pública
Aula-espetáculo de Ariano Suassuna em Olinda nesta segunda-feira (16), que marcou seu retorno à atividade pública
Ao final de uma hora e 45 minutos de aula --ficou sentado todo o tempo--, declarou que havia cometido uma "temeridade", pois ainda está de repouso médico.
Acrescentou que, a depender de sua vontade, desfilará em março no bloco Galo da Madrugada, que vai homenageá-lo no próximo Carnaval. "Pretendo, estou na dependência de meu estado físico. Seu eu puder, vou desfilar. Desfilei no Rio [homenageado pelo Império Serrano em 2002] e em São Paulo [pela Mancha Verde em 2008], porque não vou desfilar na nossa terra?", disse o paraibano radicado no Recife.
O autor do "Romance d'A Pedra do Reino" e de "O Auto da Compadecida" falou a professores da rede pública estadual de Pernambuco. Com 390 lugares, o teatro ficou cheio. Na plateia estava também o governador do Estado e presidenciável Eduardo Campos (PSB). Ariano integra a assessoria especial do governo pernambucano.
Misto de palestra, espetáculo de música e dança, é nas aulas que o dramaturgo também exercita sua porção palhaço, contando histórias e provocando gargalhadas na audiência.
Não foi diferente no "Tributo a Capiba", em que homenageou o compositor pernambucano nascido em 1904 e morto em 1997. Acompanhado de cinco músicos e cinco bailarinos do seu "Circo da Onça Malhada", Suassuna apresentou nove canções menos conhecidas de Capiba, autor de "Maria Bethânia", "A Mesma Rosa Amarela" e "Madeira que Cupim Não Rói", entre outras.
Aplaudido de pé já ao entrar no palco, Ariano abriu sua fala com um pedido: "Não me emocionem não, porque, apesar de sertanejo, eu sou muito mole, choro facilmente".
Falou da morte, a que chama de "Caetana". "Espero que seja muito bonita e carinhosa e que me receba bem. Se ela vier com essas besteirinhas de infarto e aneurisma no cérebro, eu tiro de letra."

PRAGA DE MÉDICO
E logo arrancou risos ao atribuir os problemas de saúde recentes a "praga de médico": contou que, pouco antes de sofrer um infarto, deu uma aula num congresso de cardiologistas em Ribeirão Preto (SP).
"O tema do congresso era hipertensão. Pediram que, além da minha aula normal, eu participasse de uma mesa sobre hipertensão, e ficamos eu e quatro médicos, eles falando naquela linguagem que ninguém entende. Eu disse que nem como paciente eu servia, porque minha pressão é 12 por 8. Cinco dias depois de voltar ao Recife, tive um infarto. Só pode ter sido praga de médico."
O grupo de músicos, liderado pelo compositor e maestro Antônio Madureira, executou choros ("Choro nº 5" e "Tributo a João Pernambuco"), seresta ("Tu que me Deste o teu Cuidado", sobre poema de Manuel Bandeira), frevo-toada ("Toada e Desafio"), maracatu ("É de Tororó").
Duas das letras (de "São os do Norte que Vêm" e "Cantiga de Jesuíno" foram compostas pelo próprio Ariano em parceria com Capiba.
Foi mostrado um segundo poema de Bandeira musicado por Capiba, "Cotovia", além de outra parceria com um poeta, Carlos Pena Filho ("Sino, Claro Sino").
Do quinteto de bailarinos, sob a coreografia de Maria Paula Costa Rêgo, faz parte Gilson Santana, o Mestre Meia-Noite, que Suassuna disse ser muito melhor dançarino do que Michael Jackson.
CALYPSO
No final da aula, dando sequência a uma crítica que fizera pouco antes à banda Calypso --que para ele não representa a qualidade da música brasileira--, Ariano tirou da mala um exemplar de 2007 da "Ilustrada" cuja capa trazia uma foto da Calypso sob o título "Preferência Nacional".
A reportagem contava que a banda do Pará era na época, segundo uma pesquisa Datafolha, a atração musical mais popular do país (ao lado de Zezé Di Camargo e Luciano).
O escritor criticou a seguinte frase do produtor musical Carlos Eduardo Miranda reproduzida na reportagem: "A Calypso é a verdade do povo brasileiro. O Chimbinha é um guitarrista genial. Ao mesmo tempo em que são musicalmente interessantes, eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil".
Disse Suassuna: "A Calypso é a verdade do povo brasileiro, que tem Villa-Lobos, Machado de Assis, Aleijadinho? Chimbinha é guitarrista genial. Sou escritor, sei que não se pode gastar adjetivos à toa. Se gasto adjetivo 'genial' com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven? Eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil. A cara do Brasil não é feia nem é brega, é muito bonita, e é essa que está aqui hoje", finalizou. Voltou a ser aplaudido de pé.
CABO ELEITORAL
Antes da aula, o governador Eduardo Campos falou à Folha sobre a participação de Suassuna em seu governo em em suas campanhas.
Rejeitou definir o escritor como seu cabo eleitoral. "Jamais teria o desplante de reduzir o papel de Ariano Suassuna ao de cabo eleitoral. Eu é que sou cabo eleitoral de Ariano."
Campos destacou o papel do escritor na sua campanha a governador em 2006. "Poucas pessoas me conheciam em Pernambuco. Ariano foi um avalista para o grande público que o conhecia e não me conhecia. Era uma palavra que vinha não da política, mas da sociedade."
Disse que assistir às aulas-espetáculo é "sempre um aprendizado".
No palco, ao fim da aula, o escritor agradeceu ao governador. "Tem me apoiado há muito tempo, desde que fui secretário [de Cultura] do avô dele [Miguel Arraes]."

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