sábado, 22 de março de 2014

Martha Medeiros na manhã de outono



De onde vem a nossa dor

A dor nas costas vem das costas, a dor de estômago
 vem do estômago, 
a dor de cabeça vem da cabeça.
 E sua dor existencial, vem de onde?

Ela vem da história que você meio que viveu,
 meio que criou – é sabido que contamos para nós mesmos
 uma narrativa que nem sempre bate com os fatos. 
Nossa memória da infância está repleta de fantasias e leituras
 distorcidas da realidade. Mesmo assim, é a história 
que decidimos oficializar e passar adiante, 
e dela resultam muitas de nossas fraturas emocionais.

Nossa dor existencial vem também do quanto levamos a sério 
o que dizem os outros, o que fazem os outros e o que pensam os outros
 – uma insanidade, pois quem é que realmente sabe o que pensam os outros? 
Pensamos no lugar deles e sofremos por esse pensamento imaginado.
 Nossa dor existencial vem dessa transferência descabida.

Nossa dor existencial, além disso, vem de modelos projetados como ideais, a saber
: é melhor ser vegetariano do que comer carne, fazer faculdade de medicina
 do que hotelaria, namorar do que ficar sozinho, ter filhos do que não ter,
 e isso tudo vai gerando uma briga interna entre quem você
 é e entre quem gostariam que você fosse,
 a ponto de confundi-lo: existe mesmo uma lógica nas escolhas?

Como se não bastasse, nossa dor existencial vem
 do que não é escolha, mas destino: quem é muito baixinho, 
ou tem cabelo muito crespo, ou é pobre de amargar
 ou tem dificuldade de perder peso vai transformar isso
 em uma pergunta irrespondível – por que eu? – e a falta de resposta será uma cruz a ser carregada.

Nossa dor existencial vem da quantidade de nãos que recebemos,
 esquecidos que somos de que o “não” é apenas isso, 
uma proposta negada, um beijo recusado, um adiamento dos nossos sonhos, 
uma conscientização das coisas como elas são,
 sem a obrigatoriedade de virarem traumas ou convites à desistência.

Nossa dor existencial vem do bebê bem tratado que fomos,
 nada nos faltava, éramos amamentados, tínhamos as fraldas trocadas, 
ninavam nosso sono, até que um dia crescemo
s e o mundo nos comunicou: agora se vire, meu bem.
 Injustiça fazer isso com uma criança
 – alguém aí por acaso deixou totalmente de ser criança?

Nossa dor existencial vem da incompreensão dos absurdos,
 da nossa revolta pelos menos favorecidos,
 da inveja pelos mais favorecidos
, da raiva por não atenderem nossos chamados,
 por cada amanhecer cheio de promessas,
 pela precariedade das nossas melhores intenções 
e pela invisibilidade que nos outorgamos:
 por que nunca ninguém nos enxerga como realmente somos?


Dor de dente vem do dente, dor no joelho vem do joelho, 
dor nas juntas vem das juntas.
 Nossa dor existencial vem da existência, que nenhum plano de saúde cobre, 
de tão difícil que é encontrar seu foco e sua cura.

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