sábado, 19 de julho de 2014

Os invisíveis


                                                                        Walnize Carvalho                

  A ideia primeira que passa a quem me lê o é que vou escrever sobre fantasmas.
 Nada mal lembrar por exemplo de “ Pluft, o fantasminha” (teatro infantil) de Maria Clara Machado. Para quem não sabe, “conta a história de uma menina chamada Maribel, que foi raptada por um pirata que a esconde num sótão de uma casa abandonada, onde curiosamente habita uma família de fantasmas: Mãe Fantasma e seus pastéis “de vento”; tio Gerúndio, que passa a vida dormindo num baú e  Pluft um fantasminha que nunca viu pessoas. Tem também o avô de Maribel, o capitão Bonança que é dono de um imenso tesouro”. O enredo da peça é centrado na procura deste tesouro.
.           Nada mal também esquecer daquelas visões apavorantes, que nos assombram cotidianamente : nossos desassossegos, nossos sonhos, nossos desejos, nossos fracassos, nossos descontentamentos...
Os “fantasmas” aos quais me refiro são outros: são os que aparentam   ser  fantasmas (já que se passam por invisíveis), circulam diariamente entre as pessoas e, surpreendentemente, não são notados.
Começo lembrando de “um” deles: o faxineiro do prédio em Niterói, onde tenho apartamento.
Todos os dias lá está ele –uniforme caqui ,vassoura e flanela em punho –limpando ora a portaria do edifício; ora os corredores em que transitam os moradores (que são muitos) e são poucos os o que o vêem ...e  o cumprimentam.
Mais na frente, recordo-me de episódios que comprovam esta invisibilidade e, que estão (infelizmente) se tornando corriqueiros à nossa volta: a ausência de atenção com os idosos; a falta de gentileza em agradecer pequenos gestos; a rara espontaneidade em ceder a vez nas filas... Dar o lugar a gestantes em conduções superlotadas? Coisas do passado. Abrir a porta do elevador para alguém? - Serviço de porteiro! Disse - me uma vizinha.
Quer ver um fato rotineiro que me faz sentir transparente?  Sair à rua e ao caminhar por uma calçada deparar com pessoas conversando, gesticulando e que se  esquecem de nos dar passagem.
Não estou aqui posando de boa moça. Como qualquer ser mortal, também cometo ainda que,involuntariamente, os meus tropeços. Porém, procuro estar sempre atenta aos meus atos,  enxergando o próximo e tentando dar e  retribuir a atenção  merecida, afinal vivemos em sociedade.
Ainda ontem, pela manhã, observei que a moça que varre o meio fio das  ruas (e todos os dias a cumprimento) buscava sombra sob uma árvore demonstrando sede e cansaço.Acenei-lhe e ela veio ao meu encontro e lhe ofereci um copo d’água...
Antes que os que me leem agora  tornem invisível meu texto  retorno  à peça infantil :o lado poético da obra é a relação de fortes laços de amizade que se criam entre a menina e o fantasminha.
Ah!.. ia me esquecendo: o nome da varredora da rua é Aparecida.



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