quarta-feira, 2 de julho de 2014

Carpinejar escreveu...



Carta ao Felipão
Do:oglobo.com

FELIPÃO,

Temos que parar de chorar. Isto é bagualizar, voltar ao jeito Felipão.

Acabar com frescura de se derreter por cada desafio.

Tudo bem que foi comovente se emocionar com o hino nacional cantado a capela pelos torcedores, mas agora já estamos chorando por nada, sempre.

Antes da partida, no meio da partida, depois da partida.

É como cavar pênalti com as lágrimas. Nenhum juiz dará pênalti por lágrimas. Nenhum juiz é avisado se a lágrima atravessou ou não a pálpebra. 

Há toda uma pressão para conquistar a Copa do Mundo no Brasil, esqueça! Aceito sua derrota, troco a derrota pela liberdade.

O que desejo é uma só partida com alegria, uma partida com leveza, uma partida com brincadeira, uma partida com entusiasmo, uma partida com coragem de vencer (que é muito diferente de nossas partidas angustiadas, com receio de perder).

Uma partida com aquele sentimento de superioridade infantil, de que cometemos uma molecagem, de que somos desconcertantes, de que o samba nos pertence, de que o pagode nos espera no fundo da sala e do ônibus. Uma partida para homenagear Pelé, Tostão, Nilton Santos. Uma partida com apelidos, mais mané e diamante negro, mais Didi e Vavá. Uma partida com o drible do riso no rosto. Uma partida que dê vontade de agradecer por estar vivo, que dê vontade de viver para continuar vendo.

É nossa seleção mais jovem e, curiosamente, a mais conservadora, a mais previsível, a mais travada.

O medo torna qualquer time conservador. A covardia broxa, Felipão. A covardia é o antônimo da esperança.

É nossa seleção mais jovem e, curiosamente, a mais velha, porque se entristece de responsabilidade e se condiciona diante da pressão.

Cadê a festa da Copa dentro de campo, cadê a ousadia, cadê o brio e o ânimo de abismo nos corações de seus convocados?

Nosso temperamento tem sido arrastado, básico, pouco, retrancado. Juro que não sei se é futebol ou jogo do osso, jogo de nossos ossos. Não sei se é futebol ou é Culpa das Estrelas.

Por favor, Felipão, o que não aguento é a choradeira. Não banalize o choro.

Você que nasceu em Passo Fundo sabe que chorar não pode virar hábito. Chorar é terno de enterro.

O que seus conterrâneos dirão para você?

Tu está mais medroso que cascudo atravessando galinheiro. Mais baixo que vôo de marreca choca. Mais angustiado que barata de ponta-cabeça. Mais atirado que alpargata em cancha de bocha. Mais firme que palanque em banhado.

Felipão, cadê a valentia de ser feliz?

Estamos fazendo o carreteiro antes do churrasco. Estamos paralisados pela exigência.

Esqueça a teoria dos sete degraus, a biografia que escreverá com o hexa, as propagandas com sua esposa.

Seja guri, seja piá por um dia na sexta. Uma partida feliz contra a Colômbia, de Quadrados e James. Eles são o futebol-arte que abandonamos no fundo do quintal dos anos 80.

Esqueça a taça, o espumante, vá de sidra mesmo, na boca da garrafa.

Vamos chinelear, festejar a garra.

Não há motivo para temer. Não há favorito nesta Copa. Holanda sofre para vencer o México, Alemanha sofre para vencer a Argélia, Argentina sofre para vencer a Suíça.

Não há time pequeno, portanto não há time grande.

Todos sofrem como nós. Que sejamos exclusivos na felicidade, únicos na felicidade, invencíveis na felicidade.

Ganhar a Copa é de menos, ganhe o nosso coração.

Eu quero me emocionar gritando gol, não somente cantando o hino.

Abraço

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