Crônica de sábado


Sem dar férias às lembranças

WalnizeCarvalho


Mês de julho.
Em tempo de saudosas lembranças, as férias de julho eram de 30 dias: 30 dias de puro prazer.
Eu, das irmãs era a única que camuflava a saudade de casa e curtia esse período sem pressa de acabar. Bom esquecer lápis, cadernos, a temível matemática e o leite quente tomado quase a um só gole nas idas matinais à escola.
De repente, me ponho em crônica andarilha e sobre os trilhos de um trem imaginário viajo para um povoado. Distrito do município. Santo Amaro. Terra de meus avós.
Em minha memória afetiva espio pela janela do tempo. Vejo como a passar por mim (e a me sorrir também) velhas casas e centenárias árvores. E, naturalmente, os canaviais na beira da estrada, que emolduram o cenário.
Chegada a Santo Amaro.
A alegria incomum toma conta da passageira do túnel do tempo, que suspirando constata quão prazerosa essa ida à casa da avó Mocinha e viver dias tão cheios de novidades.
Durante a temporada um ritual sempre cumprido: brincar de casinha no quintal com a vizinha ( a amiga Duduca); à tardinha ouvir lindas melodias vindo do alto- falante da pracinha; ficar conversando no coreto ao lado da igreja com as meninas da localidade,enquanto a avó assistia à ladainha e ir para casa dormir, não sem antes ouvir histórias contadas por ela .Um misto de curiosidade e medo me dominava.
Nesse momento, a saudade achava de incomodar, pois a vovó vinha ao quarto me abençoava e... apagava o lampião!
Mas, o cansaço dava lugar a ansiedade pelo dia seguinte e logo adormecia...
E ao acordar, já se via vovó lá no fundo do quintal, sob o frondoso pé de carambolas, recolhendo as mais maduras para a confecção de doce com as referidas frutas. Preparada a delícia, deixava esfriar com a recomendação, de que uma parte seria a nossa sobremesa e a outra iria para a venda do vovô, onde numa vitrine ficavam expostas em pote de cristal até a chegada de algum freguês. Havia os cativos, que se deliciavam com as carambolas que mais pareciam ameixas. O que mais gostava era quando meu avô permitia, que eu encostasse no balcão, vendesse a guloseima e ficasse mais um pouco espiando meu tio e seus amigos jogando partidas de sinuca...
Vovô Domingos!... “Domingos da venda”, como era chamado. Sua imagem surge com nitidez perfeita perante meus olhos.
Homem alto. Sério. Um bigode expressivo comum aos homens dos tempos idos. Atrás dele escondido um sorriso escasso no canto da boca. E no coração um transbordar de benevolência. De sua venda ninguém voltava de mãos vazias.
Homem rico de generosidade, mas contido em gestos de afetividade física. Não colocava netos no colo e respondia-lhes ao ser tomada “à bênção” com um “Deus te abençoe”, secamente...
Viagem de volta à cidade.
A minha mente registra um fato incomum, mas inesquecível.
Sentada estou, distraída, no banco do trem e eis que meu avô Domingos surge na janela, sorriso largo, e oferece-me um picolé.Doce e refrescante SAUDADE...

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