segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Eu vs. robô

Luli Radfahrer (*)

Apple é uma fruta. Google é um algarismo. Mordida, a maçã representa o conhecimento, o domínio da vontade humana sobre as forças da natureza. Já o número é quase desconhecido.
Em seu nome original --Googol--, ele equivale a um seguido de cem zeros, um valor tão grande que desafia a compreensão.
"I", em inglês, é um pronome pessoal. Representa o ser humano em sua complexidade, mistério, inconstância e criatividade.
Android é um robô. Começa grande, impreciso e identificável para, aos poucos, se tornar invisível, certeiro e onipresente.
Enquanto o indivíduo fascina por sua genialidade, o autômato não tem medo de dizer que só sabe que nada sabe, cativando a todos com sua aparente modéstia.
Os produtos da Apple beiram o fetiche. Sua interface, bem-acabada até o último pixel, nasce pronta, resistente a críticas, fechada a colaborações. Como uma fênix, se reinventará se provada errada e voltará triunfante, ignorando o passado. Sua personalidade é tão forte que provoca reações intensas e perenes, que perduram até depois da obsolescência.
  O Google, ao contrário, é tão espartano e discreto que beira a invisibilidade. Muitos de seus produtos nascem e morrem em silêncio. Os que sobrevivem sofrem mudanças progressivas, alheias a versões.
As oposições entre as duas filosofias parece não ter fim: um é pessoal, o outro, anônimo.
Um privilegia o design, a caligrafia e o detalhe que beira o artesanal, o outro evidencia o cálculo, a análise, as bases de dados relacionais e o processamento paralelo quase instantâneo de inteligências artificiais.
Diferentes até nas semelhanças, ambas as empresas têm sua forma particular de reinventar, valorizar e promover ideias e produtos. O conflito entre elas, no entanto, é maior e mais significativo do que a comparação de seus modelos de negócios. O embate está mais para confronto de paradigmas, choque entre o artesanal e o industrial, o dominador e o contemplativo, o humano e a máquina.
Mas até que ponto a tecnologia é alheia à nossa espécie? Não seria ela um dos ingredientes mais essenciais do homem, manifestando a eterna irritação e insatisfação que o macaco pelado tem com o estado das coisas a ponto de procurar, sempre, mudá-lo?
Não seria ela tão humana quanto as artes, com o benefício adicional de melhorar a qualidade de vida se usada com critério?
  Poucos a veem dessa forma.
Curiosamente, do mesmo modo que aborígenes tinham medo que as fotografias lhes roubassem as almas, gente moderna e inteligente teme que a dependência da rede ou o uso de uma prótese tecnológica lhes roube a humanidade, deixando-os isolados, lobotomizados, pragmáticos e melancólicos.
O temor não faz sentido. Até porque há nele certa hipocrisia, já que nem o mais lírico dos mortais quer sinceramente voltar ao passado, abrindo mão de energia elétrica, água corrente, zíperes, lycra, velcro, teflon e tantos outros.
  Seja encarada como aliada ou inimiga, a tecnologia veio para ficar.
Prodígio ou bastarda, ela é nossa filha que cresceu, ganhou identidade e demanda compreensão. Rejeitá-la faz tão pouco sentido quanto adorá-la incondicionalmente. É preciso tratá-la como adulta.

(*)Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro "Enciclopédia da Nuvem", em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas na versão impressa de "Tec" e no site da Folha.

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