quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Lições para o Brasil: Atenas até hoje não sabe o custo da Olímpíada




Contradições. Um VLT cruza o Centro de Atenas, com a Acrópole ao fundo. Os transportes melhoraram com a realização dos Jogos, mas, para os gregos, não valeram o custo 
Foto: AP/Petros Giannakouris/19-7-2004


Matéria do jornal "O Globo" hoje:

"ATENAS - O partido grego Pasok supõe que foram gastos € 6 bilhões, enquanto o Nova Democracia estima algo em torno de € 10 bilhões. Entre desacordos, outros partidos são mais taxativos: € 27 bilhões, no mínimo. Em 2007, o Comitê Olímpico Internacional (COI) havia estipulado que seriam gastos € 1,3 bilhão nas Olimpíadas. Falta de clareza à parte, o evento é considerado um dos motivos de a Grécia ter mergulhado em sua pior crise econômica, quatro anos mais tarde.
Gastos excessivos e falta de planejamento após as Olimpíadas frustraram quem achava que o megaevento impulsionaria o desenvolvimento do país. Em 2003, estudos do Ministério da Fazenda sobre os benefícios dos Jogos anunciaram que, nos 12 meses seguintes, Atenas seria uma potência turística, criando diretamente 445 mil novos postos de trabalho. Para os europeus, iria se tornar destino de fim de semana.
No entanto, as pesquisas falharam. Se em 2003, 13 milhões de turistas desembarcaram em Atenas, em 2004 os números caíram para 11,7 milhões. Quando se previa que em 2010 os visitantes seriam 20 milhões, eles não passaram de 15,5 milhões. Com a queda no turismo, cerca de 700 hotéis foram postos à venda, e centenas deles faliram.
A qualidade de vida também atingiu os gregos. Um ano depois dos Jogos, houve contração do PIB de 1,6%. Atualmente, as Olimpíadas somam cinco pontos percentuais à dívida da Grécia em proporção ao PIB, de aproximadamente 110%. Além disso, devido aos gastos excessivos, não sobrou dinheiro para melhorias nos sistemas de saúde e educação. O custo de vida se tornou mais caro, e o número de imigrantes em um país de 11 milhões de habitantes chegou a quase um milhão devido às contratações ilegais para as construções olímpicas.

Cidade melhorou mas não avaliou impactos
A crise que se seguiu aos Jogos leva os gregos a não valorizarem qualquer legado. Para políticos envolvidos no evento, os Jogos deixaram Atenas mais moderna, com a expansão no sistema de transporte, estradas, estádios, além de créditos internacionais por ter sido capaz de organizar um evento de tal porte. Segundo o presidente do Comitê Olímpico da Grécia, Spyros Capralos, não se pode negar que, depois das Olimpíadas, a capital ganhou um aeroporto moderno, excelentes meios de transportes, como metrô, veículo leve sobre trilhos (VLT) e ônibus elétricos, e novas estradas.
— Houve falhas, atrasos na maioria das obras e desperdícios. Pela pressão do tempo, faltaram estudos ambientais e de gestão após a conclusão dos complexos olímpicos. Mas devemos admitir que a cidade ficou mais moderna, e, se fosse hoje, aceitaria novamente realizar as Olimpíadas na Grécia — afirmou Capralos.
Por outro lado, cidadãos se decepcionaram com a desorganização e a corrupção trazidas pelos Jogos.
— A população em geral ficou orgulhosa de ver a cidade limpa, cheia de flores, com ruas pintadas e vários eventos culturais. Também notamos a diferença de estradas, meios de transportes e aeroportos. No entanto, se convertêssemos as dívidas olímpicas por obras de infraestrutura, seríamos uma das cidades mais modernas da Europa e sem a necessidade de pagarmos tão caro — avaliou o economista Vasilis Petridis.
Para ele, a inexatidão dos gastos, os atrasos nas obras, as trocas constantes de organizadores do Comitê Atenas-2004, a má administração, a falta de planos de impactos econômicos e ambientais a longo prazo e a ausência de licitações para a construção de instalações olímpicas causaram uma amarga experiência.



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