quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Edgar Scandurra dá sua versão sobre fim do Ira!



Eis aí um enredo clássico do rock. Dois garotos se conhecem, descobrem afinidades, montam uma banda, cobrem-se de glória, têm acesso ilimitado a drogas e mulheres, brigam, escondem-se no jazz ou lançam biografias terríveis.
Os Beatles poderiam estrelar esse drama. O Pink Floyd também. Ou o Who. À frente do Ira!, a banda mais visceral dos anos 1980, o vocalista, Nasi (o apelido vem do nariz avantajado), Marcos Valadão Rodolfo, 50, e o guitarrista, Edgard Scandurra, também da safra 1962, fizeram tudo conforme o figurino, brigando feio no final, em 2007.
Nasi acaba de publicar uma biografia barulhenta, "A Ira de Nasi" (escrita por Mauro Beting e Alexandre Petillo). O livro atira para todos os lados, mas acerta com mais virulência no ex-amigo.
Nele, Nasi diz que o ex-companheiro de banda é um cara sensível, que gosta de comida francesa e Serge Gainsbourg. Não parece, mas no meio do rock isso pode soar como uma ofensa. Nasi chama Edgard e o baterista André Jung de traidores.
Edgard teve a mesma oportunidade, mas, procurado por uma jornalista, desistiu da ideia assim que ela começou a bater no território íntimo. "Não quis chutar o pau da barraca."
Edgard e Nasi são homens de temperamentos opostos. Grosso modo, Nasi, um "front man" cheio de carisma, seria o lado B da banda, e Edgard, o principal compositor e instrumentista, o lado A.
A água e o vinho combinados ajudaram a criar as melhores coisas que o rock'n'roll brasileiro conheceu, como "Longe de Tudo", de 1985, uma canção de amor amargurada que ficava enfurecida na voz de Nasi.
O vocalista raivoso tem seu reflexo bizarro na figura elegante de Edgard, cuja admiração pelos "mods" ingleses (uma abreviatura de modernos, representados musicalmente por The Who) o levava a se vestir com roupas de brechó, na base da botinha, terninho e gola alta.
Mas bastava vê-los juntos no palco para entender que havia uma grande química em curso. Edgard dominava a guitarra como se fosse o brinquedo mais feroz do mundo, e Nasi cantava com o coração.
Hoje, o guitarrista tem projetos com artistas como Karina Buhr e Bárbara Eugênia. Toca para crianças e tem uma parceria fecunda com Arnaldo Antunes, destacada no disco "A Curva da Cintura", do ano passado. Já foi até dono de restaurante francês em São Paulo, o Le Petit Trou, que fechou.
"Sou do bem e não me importo que digam isso. Tenho quatro filhos, luto por uma vida melhor para eles", diz, na contramão da atitude roqueira consagrada.
"Não é porque vivemos no inferno que vou adorar o Diabo. E não preciso ter um amigo para o resto da vida."

PUNKS DA PERIFERIA
A amizade em questão nasceu no final dos anos 1970, por uma devoção comum ao punk. Os dois se conheceram no colégio Brasílio Machado, na zona sul de São Paulo. Mas só começaram a tocar juntos quando descobriram um festival de bandas punk da PUC. Um amigo em comum batizou o grupo.
Nas primeiras formações, o Ira, ainda sem o ponto de exclamação, tinha Nasi, na época com topete estilo Joe Strummer, Edgard, com careca a la "new wave", o baixista Dino e o baterista Charles Gavin, que depois foi pros Titãs.
A entrada de André Jung na bateria e de Ricardo Gaspa no baixo se deu mais adiante. Edgard e Gaspa moravam juntos. André e Nasi também. O Ira fechou, assim, um círculo de amizades, e era esse o espírito da banda na hora de compor, gravar e se apresentar. "A gente pensava parecido. Eu acho que representava o sentimento de todos como letrista." A exclamação do nome foi sugestão do produtor Peninha Schmidt.
O núcleo duro do Ira! continuou junto ao longo dos anos. Emplacou música em trilha de novela das oito ("Flores em Você", de "O Outro", em 1987). Lançou canções memoráveis, como o hino "Gritos na Multidão", "Mudança de Comportamento" e "Nasci em 62". Aguentou firme o advento de uma nova geração, capitaneada pelos pernambucanos do mangue beat nos anos 1990. E começou a dar vazão aos interesses individuais. Nasi e André se ligaram ao hip hop, produzindo o primeiro disco de Thaíde.
Edgard mergulhou no underground eletrônico, onde nasceu o projeto Benzina, em que Edgard manobrava os "pickups" como um DJ, mas infiltrava a guitarra no meio. "Eu era o único DJ para quem o público pedia a palheta."
O ritmo se manteve assim até o divisor de águas que foi o "Acústico MTV", gravado pela banda já em 2004. O Ira! vendeu cerca de 300 mil discos e partiu em turnês de quatro shows por semana, com casas lotadas. Mas Edgard estava em busca do contrário disso tudo. "Queria a banda como era antes."
Os holofotes se ocupavam com Nasi: parecia ser a sua banda. "Tínhamos até camarins separados. Foi o começo do fim", conta o guitarrista.
A culpa não foi do triângulo amoroso, justificativa dada por Nasi (a namorada era oficialmente de Edgard, Nasi flertou com ela e ela acabou ficando com ninguém). A amizade começou a ser minada aí, mas não foi isso que causou a explosão derradeira.
O abraço mortal no Ira! seria dado pelo produtor Rick Bonadio, que ofereceu condições de trabalho estelares em troca de uma rotina massacrante de shows -enquanto o que a banda queria eram férias.
Chegamos enfim à famosa briga entre os irmãos Valadão, Nasi e Júnior, que acabou selando o fim na base da porrada. Nasi disse que o irmão, empresário da banda, sacou uma faca para ele. O processo correu em sigilo e Nasi quase foi embargado pela família, mas hoje os dois voltaram a se entender. "Estávamos a caminho de um show em Minas. Resolvemos que não dava para continuar e ainda fizemos mais algumas apresentações sem ele", conta Edgard. Desde então, os dois não se encontraram.
E, para os órfãos do quarteto, uma notícia de cortar o coração: "O Ira!, comigo, não volta mais. É definitivo", afirmou à Serafina. Sem Edgard, que banda seria essa?

*Matéria encontrada no site da Folha de São Paulo

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