domingo, 10 de junho de 2012

Sobre sábios, arbítrios e borboletas azuis



“A borboleta azul”.

autor desconhecido
Havia um homem muito culto capaz de responder sem erro a qualquer pergunta. Uma garota sagaz resolveu inventar certa situação, armada de tal modo que ele não lograsse acertar. Escondendo na mão uma borboleta azul, indagaria ao mestre se ela se encontrava viva ou morta. Se ele dissesse estar morta, a menina a deixaria voar. Provaria, assim, o erro do sábio. Se a resposta, ao contrário, fosse estar viva, a menina a apertaria, matando-a. Comprovaria, então, que aquele sábio se enganara. Desta maneira, qualquer que fosse a sua resposta, ele estaria errando.

Certa de que criara um inteligente artifício, a jovem previa derrubar a fama do homem, considerado, até então, verdadeiro gênio. Acercando-se dele na presença de várias pessoas, perguntou:

– Seu sábio, eu estou aqui com uma borboleta azul na mão. Será que o senhor pode me dizer se ela está viva ou morta?

Calmamente, o homem sorriu e respondeu:

– Depende de você. Ela está em suas mãos...

Assim, dizem, é a existência humana. Pousam em nossas mãos muitas borboletas azuis. Podemos soltá-las... ou retê-las. Cabe-nos escolher o que fazer com elas. Somos livres para decidir. O arbítrio nos pertence. Ao longo dos anos, liberamos ou preservamos várias delas.

Mas essas borboletas azuis que nos chegam, de onde procedem? São elas mesmas que resolvem aonde ir? É de cada uma o desejo de procurar o próprio abrigo, arriscando-se à decisão de serem esmagadas por outrem?

As oportunidades, com as quais a vida nos brinda, são muitas vezes prazerosas. Confiáveis. Estão, suave e silenciosamente, escondidas entre nossos dedos. Estas, com carinho, merecem ser acolhidas. Aceitam o calor dos afetos. Permanecem conosco. Sentem-se protegidas. Mas, sobretudo, dependem de nossas escolhas. De nossas decisões.

Por isso, já outras –– fugazes, efêmeras, transitivas – , evitamos prendê-las. Partem. São asas saídas do nosso aconchego. Talvez busquem pousar em mãos alheias. Ou prefiram esvoaçar no indefinido espaço da vida. Algumas nos alcançam e adejam por ordem superior do Destino. São também azuis. Encantam-nos com seu colorido.

Não nos compete, contudo, torná-las livres ou impedi-las de voar.

Cumpre-nos, simplesmente, submeter nossa existência à mágica força de seus ditames. Sempre rigorosos. Inflexíveis. São acontecimentos que fazem sentir o quanto é penoso afrontar o que nos é destinado: dúvidas, inquietações, medos e inseguranças... Contudo, também, certas alegrias...

Assim, perguntamos: em que medida, nós somos agidos ou agentes dos atos praticados? Esta, a grande questão bipolar: o Livre Arbítrio ou o Destino? Aquele, submisso à nossa vontade, ingenuamente soberana. Este, implacável dominador dos desejos, refreando nossa falsa liberdade. Ambos, valem-se das cativantes borboletas azuis, frágeis símbolos das utopias humanas. E nós, eternos hospedeiros de seus sonhos.

Por acaso, o sábio da reflexiva história, que lhes contei, conseguiria indicar, com inconteste certeza, qual das situações existenciais, a verdadeira?


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