Crônica de sábado


A gentileza passeia de elevador

Walnize Carvalho

Recomeçando a rotina dos novos dias (afinal, após dois meses de sombra e água fresca) é hora de cuidar da saúde e de marcar consulta recorrendo a lista dos “istas”: dentista, dermatologista, nutricionista e por aí vai...
Minha prioridade foi ver como estava a pele clara ( ainda que o protetor solar fosse - e é- meu fiel escudeiro) castigada pelo sol e vento e, além do mais... não é bom facilitar!
E no horário e dia marcados lá estava, na fila do elevador do prédio comercial.
Saibam, que foi ali, que busquei inspiração para esta crônica leve e descontraída (bem ao meu jeito) de hoje:
Primeiro fiquei na ponta dos pés. Em vão. Depois espichei o pescoço por cima dos ombros das pessoas. Nada...
Afinal, sendo uma das primeiras a entrar no elevador e de estatura baixa – confesso – reconheci que seria difícil, de imediato, ler o nome do ascensorista.
Gosto de saber o nome das pessoas. Analisar se o mesmo combina com elas, se é em homenagem a alguma notoriedade ou se é – como no meu caso – a junção de sílabas tiradas do prenome dos pais. Ademais, acho gentil me dirigir a elas pelo nome.
Mas... voltemos ao elevador antes que chegue a hora de descer e não termine o meu relato.
Lá estava eu, no meu cantinho, quando o moço da gravata azul anunciou festivo: “Boa tarde para todos e para todas!”. Pronto. Foi a senha para eu sentir que era gente boa.
E seguiu: “Sente-se no meu lugar, aqui grávida tem vez!”; “Dona Mariazinha, vai para o andar de sempre?”; “Seu Oswaldo, o carro está na G1 ou na G2?”; “Um passinho atrás, por favor!”...
E, assim, continuou. Apontava o chão para a descida do idoso; dava a mão à senhora cheia de pacotes; ajeitava o carrinho do bebê...
Sorrindo, assobiando, servindo.
Percebi que não houve cara de mau humor, impaciência, olhada de relógio, nada que atrapalhasse o desempenho do simpático cabineiro. Uma cumplicidade coletiva se apoderou de todos.
E me dei a pensar: - Como pode alguém viver esta rotina sempre cercado de pessoas - as mais apressadas, compromissadas, estressadas – mantendo o mesmo pique?
Ser solícito sem ser chato; ser bom sem ser bobo; ser simples sem ser simplista.
Dá para imaginar o que é passar, talvez, oito horas diárias em uma gaiola que sobe e desce assim, feliz, de bem com a vida?
Há quem pense e diga: - Tantos por aí fazem o mesmo... É só observar!
E será que são observados?
São reconhecidos como cidadãos que desempenham de forma simples, mas exemplar, as suas funções?
Aprisionada em meus pensamentos fui despertada com a saudação: - Obrigada, seu Feliciano! Boa tarde e até amanhã! Despediu-se dele a moça sorridente que saíra do oitavo andar.
Feliciano – o seu nome.

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