sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Colecionador de vinil conta a história de seu acervo musical


Faço a postagem desta entrevista no nosso blog com muito entusiasmo, pois o professor e amigo Cliver Almeida além de colecionador , amante da boa música é membro fundador da Associação de Pesquisadores de Música Popular Brasileira do RJ;



Colecionador de vinil conta a história de seu acervo musical

Entrevistado: Cliver Ribeiro de Almeida(Campos/Rj)
Nelma Rubim Gonçalves Dias
Do:www.macaenews.com.br/

Nelma Rubim- Cliver, que tal começarmos a nossa entrevista contando antes para os nossos leitores um pouco de sua história pessoal e profissional?
Cliver- Ainda garoto, comecei a trabalhar numa fábrica, como aprendiz. Pelos dezesseis anos, entrei numa construtora, onde atuava nas áreas administrativa e contábil ao mesmo tempo, já que eu estudava numa escola de formação de contabilistas. Avançando nos estudos, tornei-me um quase executivo dessa empresa, mas percebi logo que não era só aquilo o que pretendia no campo profissional. Assim, continuei estudando e, antes mesmo de graduar-me em jornalismo, já assinava no jornal A Notícia uma coluna semanal sobre música – ComunicaSom - com ótima aceitação, sobretudo do público jovem. Como administrador, depois de alguns anos de atuação como assessor gerencial de empresa estatal, descobri outra vocação: o magistério. Partindo em busca de conhecimentos e formação nessa área, graduei-me em Espanhol e depois em Inglês, mas comecei a trabalhar na área do magistério público e particular logo após a conclusão do primeiro curso de Letras. Sinto-me honrado em dizer que, apesar da falta de valorização e do descaso por que passa a profissão, continuo professor.
Sou fascinado por som e imagem desde pequeno. Perto da minha casa havia um serviço de alto-falante. Todas as tardes, Seu Lemos colocava discos para tocar, intercalando os sucessos musicais da época com propagandas do comércio do bairro. Eu estava com quatro ou cinco anos nessa época e isso para mim era o máximo, já que na minha casa não possuíamos aparelho de rádio. Assim que começava a função, eu me encaminhava para lá e ficava na ponta dos pés, observando tudo pela janelinha do studio. O que muito me fascinava, além do som que saia do disco, era o movimento giratório daquelas “bolachas pretas” de 78 rpm (rotações por minuto). Achava um encanto acompanhar com o olhar fixo o disco que girava, girava, girava... Mas havia ainda um motivo que justificava essa minha fixação: a pequena foto dos cantores estampada no selo dos discos, que era característica exclusiva da gravadora Todamérica. O studio do Seu Lemos foi o estopim; o começo da minha ligação com o som, com a arte musical, da qual nunca me afastei.

N.R- Quando surgiu em sua vida o hobby de colecionar discos de vinil? Você se lembra qual foi o primeiro disco que adquiriu?
Cliver- Ah, isso é antigo! A coleção de vinil começou lá pelos onze ou doze anos. Antes, já possuía um grande número de 78, discos de rotação rápida, com apenas uma música de cada lado, fabricados com goma-laca, que se quebravam com facilidade. Era esse o material usado pela indústria fonográfica quando ainda não havia surgido o vinil. A fragilidade do material fez com que eu perdesse algumas preciosidades, inclusive o registro em disco das vozes de Sônia Maria, Pereira da Silva, as irmãs Zaíra e Zairene Cruz, entre outros artistas da minha cidade. Por sorte, restaram algumas gravações nesse formato, que servem para testemunhar a primeira fase da minha história de colecionador.
O primeiro disco da coleção de vinil foi um LP de 10 polegadas (4 músicas de cada lado) da cantora paulista Zilá Fonseca (Iolanda Ribeiro Angarano), gravado na Colúmbia, em 1957. Dessa preciosidade, que infelizmente me foi subtraída, até hoje não consegui outro exemplar.

N.R- Você é um dos colecionadores de discos de vinil da nossa região. Tem um acervo musical valiosíssimo. Você tem registro de quantos discos possui em seu acervo?
Cliver- O acervo está passando por uma fase de recatalogação. Senti a necessidade de acrescentar outros dados técnicos para torná-lo mais completo, mais didático, bem como facilitar e agilizar buscas num caso de consulta ou pesquisa. Além disso, muitos outros discos que dele ainda não fazem parte serão incluídos agora nessa etapa. Como se trata de trabalho meticuloso e demorado, é arriscado afirmar com precisão o seu quantitativo. Por alto, considerando todos os formatos de discos de vinil (elepês de 10’-12’) e não incluindo compactos simples e duplos, presumo que a coleção esteja em torno de quatro mil e quinhentos itens.

NR- Fale um pouco sobre este acervo musical. Quais são as obras mais importantes e raras que você tem preservadas nele?
Cliver- Em princípio, para um colecionador, tudo que faz parte do seu acervo é valioso. No caso dos discos, cada qual tem a sua história, a sua importância à parte e, quase sempre, isso está relacionado a um acontecimento pessoal, uma data comemorativa marcante; um marco histórico relevante... Por isso, cada um deles preserva uma importância histórica particular, ligada a uma determinada música ou até mesmo ao próprio disco, no todo. São esses fatos que os tornam significativos. Posso citar algumas preciosidades que fazem parte do acervo, ressaltando, entretanto, que é muito vasto o número de discos que se destacam dos demais, considerando, ainda, outros fatores como raridade, originalidade, assinatura do artista, trabalho de capa, texto de apresentação, entre outros. Para você ter uma idéia, ficarei apenas em alguns exemplos: o vinil Tim Maia Racional, que marca a fase mística do artista, e que não correspondeu à expectativa em termos de vendas, vem sendo disputado a peso de ouro. Já recebi proposta de R$ 600,00 para vender esse disco. Estão sendo repostas no mercado cópias de alguns discos de Tom Zé e de Jorge Ben (antes de virar Benjor). As cópias são muito perfeitas e reproduzem a edição original das capas. Custam entre R$ 80,00 e R$ 100,00, mas serão sempre cópias. E quem, em sã consciência, teria a coragem ou cometeria a loucura de se desfazer de um disco de Clementina de Jesus, por exemplo, em cuja capa se lê “ Ao meu querido...”, feita em letra cursiva, por mãos trêmulas, que foram beijadas em agradecimento à dedicatória? Não poderia deixar de mencionar também o disco de Carolina Maria de Jesus, a catadeira de papel que virou escritora. Nesse disco gravado na RCA Victor, a autora de “Quarto de Despejo” canta doze composições suas. São peças simples, de letra fácil e melodia singela, mas reveladoras do seu mundo interior feito de sonhos, anseios e medos; do universo de uma favelada do Canindé, que depois de ter seus livros publicados em vários países, volta à condição de favelada. Há muitos discos que são importantíssimos para mim como Ed Lincoln (“Ed Lincoln”, “A Volta”), Alaíde Costa (“Alaíde Costa & Oscar Castro Neves”), Trio Ternura, Muritiba (“Muritiba”,”Vôo Rasante”) Os Lobos (“Miragem”), Milton Nascimento (“Travessia”), Big Boy, Dick Farney (todos), Neusa Maria (Melhor cantora de 1956) Yma Sumac (“Voice of Xtabay”) ...

N.R- Como consegue manter este acervo, que é uma espécie de “santuário sagrado”? O seu acervo está inserido em algum projeto estadual e/ou municipal, que possibilite o seu conhecimento e utilização por universitários, historiadores, pesquisadores, professores e músicos?
Cliver- A manutenção é feita na medida da disponibilidade de tempo, já que tenho outras atividades e não conto com ninguém para auxiliar-me nessa tarefa. Além disso, trata-se de um trabalho muito pessoal, que demanda certos cuidados, muita dedicação, paciência e empenho. Alem disso tudo, há que ser destacada, talvez a parte mais importante desse hobby – o prazer.
E essa sensação que o colecionador experimenta vem exatamente da relação de carinho, de zelo; do contato físico com aquilo pelo qual tudo faz para preservar.]

N.R- Você teria interesse e/ou disponibilidade para participar de algum projeto que objetivasse o conhecimento e utilização deste acervo para fins acadêmicos, artísticos e profissionais?
Cliver- Sim. Tenho enorme interesse no sentido de não apenas preservar esse acervo, mas de também disponibilizá-lo para fins acadêmicos, artísticos e profissionais. E para que o fruto da pesquisa ou utilização do material seja realmente revertido em ampliação de cultura e de conhecimento, penso que seria fundamental que essas classes de pesquisadores assinassem uma espécie de termo de compromisso.

NR- O que seria necessário em termos de recursos humanos e materiais para que pudesse disponibilizar o seu acervo para pesquisa?
Cliver- Apesar do empenho, de todo o esforço, e do interesse, reconheço que me falta uma estrutura adequada para funcionar nessa área, sem que o material corra, é claro, qualquer tipo de risco. Haveria necessidade de compor uma assessoria (duas ou três pessoas) com conhecimento e habilidade satisfatórios, além de bastante sensibilidade, ou seja, com o perfil que correspondesse perfeitamente a essa área, haja vista que principalmente música, que é um bem imaterial importante, não pode ser tratada com a indiferença com que se tratam as coisas passageiras, de vida curta, de importância discutível.
Quanto à parte física, haveria necessidade de se buscar um espaço bem localizado, seguro, amplo, arejado e equipado, para abrigar e dar condições de utilização do acervo de forma prazerosa, não ficando esquecidos, contudo, os aspectos praticidade e rapidez.

N.R- Você tem contato com outros colecionadores no Brasil e no exterior?
Cliver- Meus contatos são com colecionadores apenas do Brasil, mais por prazer em “trocar figurinhas”, para saber das novidades e a valorização qualitativa do acervo de cada um, do que da ampliação propriamente dita do número de discos. Observo que há alguns colecionadores que o são mais em função de negócio do que propriamente do hobby, o que em nada combina comigo.



N.R- Em que locais e/ou como você consegue adquirir atualmente discos de vinil para continuar com o seu acervo?
Cliver- A ampliação do acervo é feita através de trocas com outros colecionadores, compra de ambulantes que têm ponto fixo em ruas e praças ou em feiras de antiguidades. O mais viável, entretanto, por questões diversas, é adquiri-los em sebos. Nessas lojas, você não corre nenhum tipo de risco e ainda goza de vantagens. Há diversos sebos no Rio e em São Paulo. Como muita gente sabe que tenho esse hobby, estou sempre ganhando lotes de discos de pessoas que perderam o interesse pelo vinil. Há poucos dias, uma pessoa a quem muito estimo consultou-me sobre o interesse por uma coleção de discos de obras de Sheakspeare. Respondi-lhe que serão muito bem-vindos, já que possuo alguns clássicos literários em língua francesa.
Há, também, as pessoas que devido à dificuldade de manter seu equipamento em perfeito estado (é comum a falta de peças de reposição ou carência de técnicos), desistem de manter esses discos ocupando espaço na casa. Assim, a gente vai acumulando duplicatas, algumas das quais são presenteadas a outros colecionadores.

N.R- Dizem que não temos filhos preferidos, mas que temos filhos com os quais nos identificamos mais. Sei que os seus discos são como “filhos” para você. Qual o disco que mais se identifica com o seu perfil?
Cliver - Este é o tipo de pergunta difícil de ser respondida. Equivale quase a uma sentença de morte. É impossível destacar apenas um no meio de tanta preciosidade. Seria um pecado, uma injustiça contra muitos artistas de reconhecido valor. Já que não posso deixá-la sem resposta, não vejo outra saída senão escolher alguns discos com os quais muito me identifico.
Também em função deste espaço, cito alguns: “Miragem”, (Lobos), um disco atemporal; “Trio Ternura”, pela beleza melódica e harmonia das vozes; “Minha Prece de Amor” (Silvio César), pela sinceridade poética das letras; todos os de Taiguara, pela ousadia e coragem de revelar suas ideias e pelo lirismo contido na maioria das letras; todos os de Dick Farney, pela elegância com que cantava e tocava, além da qualidade do seu repertório...

N.R- Como professor e pesquisador, você considera que o Brasil é um País que preserva a sua memória? Sabemos que objetos religiosos estão sumindo dos altares das igrejas históricas de Pernambuco e de vários outros estados do Brasil. E que este furto está sendo atribuído aos colecionadores de arte sacra. O que pensa sobre isto?
Cliver- Não. O Brasil não é um país de memória preservada. E nem sei se um dia teremos consciência dos prejuízos decorrentes desse descaso para com o que temos de original, de importante e valioso em termos de arte e cultura.
Essa culpa cabe, em grande parte, aos próprios brasileiros que, por desconhecerem sua cultura, acabam se ligando e absorvendo, sem restrição, tudo que vem de fora. Um exemplo desse descaso é Villa Lobos, que é mundialmente conhecido e estudado, e passa como um estranho desconhecido em seu país. É uma dura e triste realidade, mas temos de admiti-la. Não adianta mascarar essa realidade.

N.R- O que você gostaria de destacar como incentivo para os colecionadores de disco de vinil?
Cliver- Ouvimos muita gente falar que o vinil está voltando, que as pessoas estão querendo colecionar, até mesmo conhecer discos de vinil, como o caso da nova geração. Outro dia, num sebo no Rio, um garoto acompanhado do pai, estava a procura de discos dos Beatles. Para esse jovem, o charme era curtir a banda inglesa em vinil, que é dificílimo de achar, e não em outro formato.
Ouvir alguém dizer que o vinil está de volta soa muito estranho para quem sabe que ele nunca saiu de moda. E até acredita que não sairá por completo, pela qualidade sonora que o CD não conseguiu superar. É claro que com o aparecimento do CD e de outras mídias eletrônicas, as gravadoras brasileiras foram inibindo a produção de vinil até a total desativação de suas fábricas. Outras, mesmo deixando de produzir para o mercado interno, continuaram produzindo vinil apenas para países como Estados Unidos e Japão, um dos maiores consumidores de música brasileira. E haja bossa-nova para saciar a gula desses orientais! Posso até acrescentar um fato curioso: só existe no Japão em formato CD, o LP “Tema do boneco de palha” da cantora e compositora Vera Brasil, cujas músicas eram muito tocadas na rádio Jornal do Brasil no começo dos anos 60.
Como colecionador e amante de música, gostaria de pedir aos jovens, que não obstante a praticidade, as facilidades e as maravilhas proporcionadas pelas modernas tecnologias, não embarcassem nessa onda do descartável,
sobretudo em relação àquilo que se refere à cultura e ao entretenimento. Assim, eles estarão contribuindo para que não seja apagada a história de gerações que viveram inesquecíveis momentos de prazer e de emoção embalados pelo som que saía dos discos.

N.R- Cliver, você sabe o prazer que foi tê-lo como entrevistado nesta coluna. Espero que a divulgação de seu acervo, que considero valioso, possa trazer a possibilidade de utilização para pesquisas e futuros trabalhos na área musical. Você é um pesquisador que deveria estar direcionando estudos sobre a história da música brasileira, mas neste nosso Brasil nem tão brasileiro, infelizmente, há talentos, que não estão sendo bem aproveitados, mas quem sabe? De repente, a partir de hoje, começamos a contar uma nova história! Gostaria de deixá-lo à vontade para finalizar esta entrevista como desejar. Se quiser deixar os seus contatos para possíveis projetos, fique à vontade! Obrigada!
Cliver- Fico muitíssimo grato pela oportunidade da entrevista e pela confiança em mim depositada. O Brasil é um país musical por excelência; nossa música é cantada, ouvida e aplaudida em qualquer parte do mundo. Essa é uma das boas razões para que seja por nós preservada.

Qualquer contato no sentido de informação ou ajuda poderá ser feito através do seguinte endereço eletrônico: cliveralmeida@hotmail.com. Terei o maior prazer se, em alguma oportunidade, puder ser útil.

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